segunda-feira, 9 de março de 2015

Empate – Empate [2015]

É muito difícil falar desse EP e não me lembrar de 2007, quando um amigo mostrou a demo do Algernon Cadwallader. Naquela época, eu não estava muito por dentro do que acontecia com o “emo”, e continuava a ouvir as bandas antigas que eu adorava e continuo adorando. Naqueles dias, eu não sabia do “boom” que essa pequena derivação do hardcore/punk/indie (seja lá o que for), teria nos anos 10s e quantas bandas interessantes apareceriam. Então eu percebi que aquela nostalgia barata poderia ceder mais espaço a um bando de jovens que queria produzir músicas com enorme carga dramática e a margem dos caminhos do mercado. Se naquela época aquilo ainda só se esboçava, EP’s como esse do Embate surgem para confirmar que todas aquelas bandas dos anos 90 se esforçaram e que o resultado continua sendo gente muito empolgada em desabafar e exteriorizar tudo o que nos contamina nessa vida. Ouvir Empate, pra mim, é uma celebração de um passado que valeu a pena ser vivido e de um presente que, apesar das inúmeras merdas, merece ser comemorado.

Mas eu não quero dizer que a banda é uma mera “réplica” de outros grandes nomes no ‘”gênero”. Pode-se encontrar nesse EP uma interessante variação, tanto temática quanto instrumental. Num punk bem cativante, as guitarras dedilhadas interagem criando melodias intricadas e mudanças de tempo, contando com vocais empolgantes – às vezes, em coro. O vocal  de Cassio é realmente comovente, e embora ele se debruce sobre temas cansativos que implicam em desgaste, ele enxerga ações que, embora não derrotem de fato esse mal-estar que parece estar sempre presente, diagnostica em seus berros suas angústias. Em “E aí Doutor?”, a parte mais inquieta assalta e vai culminar em um coro de vozes, onde o eu lírico só quer “esquecer quem é”. É curioso, pois, na faixa seguinte, “De Escama”, ele é caçado por uma autoconsciência que reflete apenas cansaço. Às vezes, dá vontade mesmo de parar de tentar, porque é tudo muito estressante. Parece que ninguém nos ouve e ficamos muito esgotados para esboçar qualquer ação.

Ainda em “E aí Doutor?”, onde uma espécie de “mau exemplo” se insinua, na verdade há sede para se proceder de maneira mais própria, tentando se livrar dos dogmatismos estagnados socialmente. Já em “De Escama”, o desenvolvimento instrumental mais lento gera uma ambiente de reflexão um tanto quanto solitário, o que é evidenciado quando o vocal afirma que “quanta mais tenta, prefere ficar de escama”. No fundo, essa ânsia por autonomia e essa reflexão sobre “estar à margem” fundem-se e sinto que é a temática principal do disco, mesmo que às vezes mais cobertas com o humor. “Sr. Fernando” tem uma introdução interessantíssima, revelando uma batalha entre as coisas mais “básicas” da vida, envelhecer e amor.


Esse EP é o registro dessas bifurcações constantes entre desejo de distinção e de alegrias mais “simples” e imediatas, no momento que conhecemos como “agora” e a quantidade de dúvidas que tais aspirações causam. A gravação do disco opta pela “crueza” necessária para retirar vida da mesmice cotidiana, tendo como antídoto os gritos e os instrumentos tocados e a ânsia por serem ouvidos. É algo altamente pessoal, mas podemos compartilhar dessa percepção de escape. Mas não me refiro a uma escapada de tempo. Não! Eles sabem que essa medida já está morta, e querem doses e botar tudo pra fora e pronto! O Empate consegue nos atingir com o que se propõe a fazer e traz suas dúvidas assim como a convicção de que ganhar e perder faz parte, e sempre terá uma próxima batalha.

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