quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Steve Roach - Emotions Revealed

Um dos meus trabalhos favoritos de todos os tempos na música eletrônica é o Structures From Silence, disco no qual Steve Roach conseguia suspender toda sujeira sonora em áudios cristalinos em uma estética sensitivamente densa. Emotions Revealed se trata de duas peças compostas anteriormente à obra-prima de Reich e que felizmente puderam vir ao mundo no começo de 2016. Enquanto na primeira faixa podem-se sentir as influências de músicos notáveis e um Roach que ainda estava desenvolvendo uma personalidade, a relaxante segunda peça revela vislumbres da genialidade que o Structures From Silence viria a ser, com fortes influências dos primeiros lançamentos da Escola De Berlim.

Naquela época, os experimentos ainda estavam sendo feitos e muitos lançamentos seriam considerados anos depois como pioneiros em vários subgêneros da música eletrônica. Os próprios primeiros trabalhos de Roach se mostram um tanto quanto imaturos e genéricos, o que ele perderia já na elaboração de Emotions Revealed. Aqui temos um músico extremamente à vontade com suas ideias de repetição, em duas gigantes peças com uma textura onírica e sintetizadores que criam um espaço digno para exploração. Seria tolice afirmar que Roach foi um dos primeiros a trabalhar nessa linha, mas o talento revelado nesse disco não deixa dúvidas de que sua produção se divorciaria inevitavelmente de outras eletrônicas generalizadas.  Aliás, esse disco mostra meditações menos distorcidas do que os trabalhos posteriores de Roach e as orquestrações de cordas são o plano de fundo para a repetição de uma simples melodia que fica sempre em primeira instância e trabalha sentidos que conseguimos relacionar facilmente. Esse trabalho de associação imediata é importante porque na segunda parte do álbum Roach vai criar uma ambiente insistentemente mais obscuro e distorcido, se aproximando muito de algumas obras de Klaus Schulze.

A segunda peça se assemelha bastante a Structures From Silence; o tempo é devagar de forma gradativa, ou seja, cada momento soa mais lento que o próximo, assim como os detalhes vão ganhando mais relevância e a estética de Roach vai, aos poucos, se delineando- como um pequeno ato do cotidiano em ultra slow motion. A continuidade massiva de Firelight caracteriza uma instalação em que, aos poucos, pode-se mergulhar. Lentamente, as máscaras das influências de Roach vão se pulverizando para o movimento desgastado e repetidamente modificado exibir um artista com conceito próprio. Os sintetizadores criam uma estrutura etérea de eternos e lentos movimentos que se integram justamente pela instalação criada por Roach, sendo um exemplo das primeiras produções de música ambiente, executada por um jovem Steve que claramente ansiava não repetir suas influências.


Toda a transformação artística que Roach exibiu ao longo dos anos evidencia um artista ligado às novas formas de produção, mas que ainda assim, nunca completamente se submeteu a elas. Nesse tempo, suas abordagens tem-se mostrado cada vez mais grandiosas e que necessitam de muitas análises para realmente compreendermos os detalhes dos álbuns; isso tudo é compactuado dentro de Emotions Revealed que revela um Steve muito mais acessível do que nos anos decorrentes. Esse disconão é apenas “material para fãs”, mas é objetivamente uma revisitada a um dos artistas mais importantes em sua área de atuação e que indica os rumos diversificados que sua obra de vida registraria. Ainda assim, Emotions Revealed não é uma peça de museu, é uma obra que claramente pulsa por sua vontade.

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