segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Entrevista com Dorgas



Não se engane pelo nome (embora ele seja parte do lúdico que envolve a banda), o conjunto Dorgas, em apenas dois lançamentos- um álbum cheio e um EP-  está mais interessado do que a simples noção de "banda engraçada de rock".

Isso já podemos notar no primeiro álbum autointitulado, desde suas belas melodias até seu instrumental bem dançável, com letras mais "ocultas" e um vocal com falsete notável. No EP ainda fresco, Semanas Góticas, o instrumental toma conta, apostando muito mais em uma experiência sensorial e intuitiva.
O vocalista, tecladista e guitarrista, Guerra, foi gentil o suficiente para responder algumas perguntas. Abaixo a entrevista:

1. O Manifesto do “Semanas Góticas” acaba falando em um mundo novo. Como começou a concepção do EP? Ou concepção também já chegou ao limite?

Um pouco dos dois, Mundo Novo na verdade é o nome da rua onde Cassius e Lufi moram, a gente tomou aquele lugar de forma bem carinhosa durante as férias de inicio do ano, mas hoje em dia não sei se existe mais essa conexão com o lugar. Então, sim, as "Semanas Góticas" já passaram, mas ainda há suco para tirar delas haha


2. Ainda no Manifesto, vocês falam sobre "esquecer os vocais". Você tem usado os vocais nos shows. Pelo menos no que vi em São Paulo, a tendência é essa mesmo, a banda ficar mais instrumental ou "fusion bosta" daqui pra frente? Ou fazer o que der na telha e se de repente der vontade de berrar, sair gritando por aí?

Nós definitivamente não vamos deixar de ter uma banda com vocal, afinal nós somos criados a base de muita música com voz, mas sempre houve um desconforto muito grande por parte dos vocais na banda, primeiro porque o espaço para vocal é sempre limitado, pois fazemos a musica primeiro e depois encaixamos a voz, e quando não se tem um compositor principal fica mais difícil se expor liricamente, pois existe um processo gigantesco de construção do instrumental que é quase ingrato se expressar de forma individual, eu sinto isso especialmente. Creio que nós quatro nunca chegamos a um acordo ou seguimos uma mesma ideologia sobre representações líricas, o que dificulta mais o processo do "vocal tradicional". Acaba que a letra vira essa grande mambembe que é a ideia melódica da frase, algo que não é tão confortável pra gente, mas ninguém disse que nós somos uma banda 100% relaxada também... 

3. Como rolou a participação do Jards em "Faisão Dourado (Tendência e Cor)"? O último trabalho que ouvi dele foi Amor, Ordem & Progresso  (que é muito bom), qual disco dele vocês acreditam que tem mais efeito na banda, se não sonoramente, pelo menos em gostos pessoais?

Não vou mentir; grande parte da banda tem como disco favorito dele o autointitulado de 1972, que é o mais conhecido, apesar disso tudo eu ouvi recentemente uma versão excelente dele pra "Ministério da Economia", que é sempre uma bela canção no sentido contextual (tanto para 1951 quanto para 1984). Ele sempre foi essa figura que deu errado na história da MPB, o que é muito mais elegante do que um Caetano Veloso, uma vez que é a uma forma não observada dessa história tão magnetizada da musica brasileira nos anos 1970. Ele é a típica pessoa que se você perguntar aos seus pais sobre sua figura eles vão responder simplesmente como "um maluco", o que é mais interessante ainda, pois hoje em dia ele tem um apartamento legal no Jardim Botânico e vive dos seus showzinhos e status cult. Jards virou alguém que não teve que se matar pela acessibilidade e ao mesmo tempo consegue desfrutar de uma vida confortável... Se não musicalmente, ele é inevitavelmente um modelo de carreira light pra todos nós, "bandas e artistas independentes".

4. Comparando o primeiro disco com esse último EP, qual foi a grande diferença no processo de gravação?

5. Com o quê a gravação do Pedro Garcia contribuiu tecnicamente?

6. O som nesse último EP parece mais "natural", mais expansivo. Esse foi um processo de amadurecimento da banda ou desconstrução do formato mais "linear" do primeiro disco?

Primeiro de tudo, o EP é definitivamente mais fresco, foi rápido, as canções tiverem tempo para respirar e não soarem cansativas, a gente compôs em janeiro e lançadas em julho, as musicas do disco foram compostas entre julho de 2011 e janeiro de 2012 e só foram lançadas em maio de 2013. O EP foi 10000x menos estressante de se gravar também, pois gravamos ao vivo, sem edição e o processo criativo simplesmente se deu com o coração do que a banda é... Nós tocando em um estúdio, como se fosse um ensaio ou show. Acho que especialmente hoje em dia, com tecnologia e um incrível fluxo de música (o que obviamente resulta em incessante consumo) a pressão envolvida de uma música, um registro de áudio ter que soar perfeito (pois é a marca que vai percorrer a rede) fica gigantesca e muitas bandas cedem a isso com o desejo e pressuposto de que certas decisões em estúdio vão logicamente levar a mais pessoas, o que é muito errôneo uma vez que é a indústria da música é uma indústria desfragmentada, apesar desse olhar musical em cima de textura de estúdio ser interessante, não acho ele mais tão interessante para o formato "banda", acho que esquece os princípios básicos de uma banda que é a própria sociabilidade entre os membros, que se dá especialmente quando eles estão junto compondo e tocando em um estúdio. Veja bem, se eu sentar com o Cassius, ou o Verdeja ou Lufi e falar sobre musica provavelmente nossas ideologias sobre composição, produção etc. vão se divergir, mas quando estamos no processo de composição de uma música existe um pragmatismo e uma abertura muito grande entre nós aonde surpresas acontecem e enquanto a banda vai compondo, vai se formando uma musica que soa surpreendente pra cada um de nós, pois cada um deu seu pedacinho pra fazer aquilo acontecer... Ou quer dizer, quando a banda termina de compor algo e toca aquilo, esse é o momento mágico, pois é a forma mais pura de como a relação entre nós funciona... Você tem que se lembrar de que nós não somos uma banda de quatro compositores formais, nós somos uma banda no estilo mais Nashvilliano possível... A gente entra no estúdio com nada e sai com tudo, o "coração" da banda está em tocar numa sala. No disco abrimos a porta para outras pessoas darem suas vozes e gerou um resultado que não foi tão confortável (especialmente porque demorou muito), não vou falar sobre arrependimento, mas com certeza nós não estávamos valorizando qual o "real" momento em que tocar nessa banda era realmente gostoso (pois obviamente, é difícil compor novas musicas quando se esta gravando e mixando outras) e o quanto é importante uma musica não soar cansativa, independente de quão "boa" você ache ela... Ficamos mais tempo gravando, mixando do que compondo, e isso envolve técnicas que nem todo mundo da banda entende. Depois do disco, eu não consigo me ver mais em uma banda aonde o processo de composição não é a principal via da banda, se for assim, prefiro fazer outros projetos de formato diferente, mas não estar em uma banda com esse método de pensamento.

7. Quais são as bandas/artistas que mais os têm inspirado?

Não posso falar pelos garotos, pois não sei o que eles realmente têm escutado, mas eu tenho escutado aqueles rocks imbecis dos anos 70 como Thin Lizzy, Bay City Rollers, Slade... Aquelas bandas que de primeira instância tinham todo esse bravado do rock'n'roll, mas no fundo elas realmente tinham um gostinho pra fazer algo mais melódico, eu acho interessante. Você tem que entender que eu fui formado em uma época em que as pessoas (de classe média pra cima) já têm acesso a tudo, quando eu tinha 15 anos (em 2007) eu já ouvia Gang Of Four, Minutemen, Pop Group e todos as bandas mais obscuras do pós-punk, o que é uma figura muito diferente de alguém que cresceu nos anos 60 ou 70, onde elas passavam por formas de musica dominantes até chegar em algo mais "underground". Quando eu ouço bandas de rock'n'roll parece que estou ouvindo uma cultura que esteve sempre perto, mais ao mesmo tempo a par de mim, uma vez que passei minha adolescência inteira olhando criticamente para os valores do rock'n'roll, e ainda olho de certa forma, mas existe uma noção de orgulho que eu acho interessante de ser analisada, se você pensar em que o Phil Lynott pedia pra tirar foto com ele cheirando pó pra mostrar pras pessoas que ele era durão hahaha, eu realmente acho interessante estilos de musica em que as pessoas têm que forçar formas em ordem de fazer a mensagem chegar forte.

Eu também tenho um selo de house/techno/musica sequenciada chamada 40% Foda/Maneirissimo, então eu estou sempre ouvindo coisas por ai, mas não acho que elas sejam relevantes para minha formação na banda, uma vez que acho que é uma cultura que funciona bem diferentemente do tradicional cenário de bandas de rock. 

8. Quando eu os assisti em São Paulo, ainda não conhecia bem o EP, não tinha ouvido o suficiente. Esse EP permite que seja apresentada toda sua textura, distorções, ao vivo?

O EP é exatamente igual ao que é tocado ao vivo, às vezes melhor executado, as vezes pior. É perfeito para o consumidor haha

09. Especificamente, qual o tipo de público que o Dorgas se comunica hoje?

Da mesma classe social e de vez em quando temos a bela surpresa de aparecerem pessoas que gostam da banda e são muito mais velhas que a gente e muito mais novas. Grande parte das pessoas tende a ver o Dorgas como essa banda super-nonsense e engraçadinha, então elas tendem a se comportar assim também com a gente... Mas nós só somos engraçadinhos porque isso é uma pratica entre nós, e bastante saudável. Em relação a sermos vistos como nonsense, eu fico meio triste em ver isso, pois é o exemplo perfeito de como as pessoas não conseguem mais entender que a "forma" pode ter um impacto tão grande quanto o "conteúdo", não quero aqui falar de uma valorização de algo como, por exemplo, "shock value", mas a representação do que a gente fala, escreve e compõe são importantes, essas merdas que a gente posta no facebook não são sempre "de graça". Não é porque são representativas da gente, porque elas não são diretamente lógicas que elas não oferecem uma reflexão, só o fato das pessoas já não taxarem de "nonsense" já mostra o quão formal é a forma que as pessoas estão acostumadas a ver bandas se comunicarem no facebook.

10. Por favor, relatem a dificuldade para achar locais para realizar apresentações, e por que essa é uma das situações mais corriqueiras para bandas "alternativas" no Brasil?

Não sei, é porque é difícil falar da perspectiva "alternativa" uma vez que isto nunca conseguiu a se formar como uma indústria no pais, sempre foi "underground" no seu sentido mais definitivo da palavra,  com a internet (e obviamente tecnologia = acessibilidade = aprofundamento de valores liberais) o interesse das pessoas no pais esta em procurar aquilo que as mais interessa, e obviamente as pessoas vão se interessar mais pelas cenas onde já se há uma valorização histórica dessa cultura que elas querem consumir, não preciso nem falar que esse lugar não é o Brasil, nosso pais acaba sendo esse grande Frankenstein de pessoas se esforçando para dar vazão a cenas que elas gostariam que rolasse aqui, mas não sei algum dia realmente funcionariam de forma automática e rentável. É mais fácil curtir outros estilos que já tem uma economia mais saudável por aqui. 

11. E essa capa bacana do Semanas... Como rolou?

Nossa amiga Tay levou Cassius e Lufi para o Cemitério São João Batista e tirou a foto enquanto eles tavam de bicicleta.

12. A estreia de vocês teve matéria no oglobo, como foi aparecer em um meio tão vinculado? 

Sendo 100% sincero contigo, se você mora na Zona Sul do Rio de Janeiro sair n'O Globo não é a coisa mais difícil (e isso é independente de estilo, é uma questão de associação), o Rio é bairrista e a ZS é mais ainda, por isso a gente trata uma matéria n'O Globo como algo normal, apesar de nossos pais e amigos se orgulharem. Eu gosto de ler os comentários da versão online que você pode ver o quanto as pessoas odeiam tudo que é valorizado lá, faz sentido até.

13. Obrigado! É a última, por favor, falem o que quiserem, só garantam não ofender nossos pouquíssimos leitores. Ansioso para ver o que a banda produzirá daqui pra frente.

Eu que agradeço por fazer diversas perguntas, gosto de falar, pois sinto que é o melhor espaço para o leitor contextualizar o Dorgas... Semanas Góticas 2 em breve e vamos fazer recálculos do repasse ao invés de reformas socioeconômicas. Espero que todos os leitores estejam a salvo e OK com a vida, um beijo e bela semana para vocês.

Para acessar o facebook da banda: Dorgas Facebook
Para baixar o primeiro álbum: Dorgas 
Para baixar o EP: Semanas Góticas 

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