terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Hong Sang-soo - Filha de Ninguém (Coréia do Sul, 2013), A modernidade datada.


Viver era me colorir com o rosa da luz suspensa, inexplicável...”, César Aira.



Mãe e filha conversam sobre as coisas relativamente mais comuns; a faculdade da filha, por exemplo. Ambas andam pela cidade com poucas pessoas nas ruas, a voz em off da filha fala algo sobre um motel nomeado Motel Famoso. Em algum momento da caminhada, a mãe repara em um jovem fumando e comenta que ele é “bonitinho”, a filha concorda. Ambas são deixadas fora de quadro, o rapaz solta o cigarro no chão para ir atrás delas, o cigarro é focado enquanto vira cinzas no asfalto. Em uma livraria, eles se encontram novamente, o jovem com outro cigarro, inicia um diálogo com as mulheres, quando a mãe pergunta se ele gosta de fumar, a resposta é apenas uma; “acho que é vício”.

Os filmes de Hong Sang tem a característica de fazer várias associações autorreferentes; hora um personagem diz sobre o que vai acontecer, ou um ato pode ser visto como déjà vu para uma cena anterior- lógico que tudo isso no terreno das metáforas, como se os erros fossem os mesmos, apenas as pessoas diferentes. Nesse jogo de espelhos, não é feita uma análise do mundo social enquanto veiculo de declínio das personagens. O cenário civil é decorrente de algum baralho viciado confuso. O cigarro avisa sobre os vícios de uma juventude. Mas também é a metáfora perfeita para a obsessão, em uma análise profunda, como veremos mais para frente. A desorganização é onipresente. Os casais que passeiam pela tela têm um vício, e não conseguem simplesmente apagá-lo como o jovem faz com o cigarro, não sem ferir-se mutuamente, de uma forma ou outra. 



Por isso um professor sul-coreano, que reside nos EUA, ao conhecer a menina, já sabe “quem ela é” [sic]. Não há individualidade nem na suposta protagonista- no jogo dos erros, o mundo é destituído de singularidade. Esse professor descreve pormenorizadamente a garota, tanto que ela tem que mudar de assunto. Portanto, é um tipo de cinema que se assemelha aos quadros de Georges Braque Bodeg, porque a projeção demonstra as formas existentes, formas que flutuam e que não se destacam por ter algum tipo de espírito ou alma, na verdade, é uma demonstração da modernidade datada.


A mise-en-scène é articulada abafando as vozes próprias. Mesmo que poucas pessoas estejam em uma cena, - aqui elas são quase todas destituídas de multidões- esse relativo paradoxo anuncia as semelhanças dos “distantes”. Quando uma câmera se desloca para focar um ator, o mesmo procedimento será realizado matematicamente com os outros enfocados. E talvez até desapareçam da história, como o rapaz “bonitinho” que aparece no começo, varrido para baixo de todo o drama ou a encenação trágica. Quando o plano é longo, de paisagens, não temos o mesmo deslumbramento com o mundo –ou desencanto- que Antonioni nos passava, em seus filmes ainda existia certo tipo de resistência ao mecânico, em Hong Sang os campos extrapolados servem justamente para denunciar a tentativa falha de encontrar algo mais amplo e profundo.


Então a tragédia está localizada na libertação individual. Pois A Filha de Ninguém é formado por pessoas ordinárias, que parecem procurar vícios para se libertar da calamidade da vida. Como se fosse um jogo do destino, qualquer encenação possível não encontrará redenção. Quando Haewon (Jeong Eun-Chae) sonha, não vemos seu idílio- ela nem sequer dorme realmente, a não serem as cochiladas enquanto tenta estudar-, ela já está muito lançada nas encenações e preocupada com seu próximo arremesso. Mas a chave do destino aqui, e destino no filme adota o mesmo tom da vida e da tragédia, é deixar claro; como a protagonista, estamos todos condenados ao desprezo. Tal qual Norbert Elias, o processo social condena o indivíduo a interiorização, à solidão do abandono.

Um filme que em teoria de sinopse seria sobre a interioridade subjetiva de uma menina, acaba sendo um registro das relações sociais contemporâneas. Devo confessar que fiquei muito estimulado com o jogo e o acordo social abafador proposto por Hong Sang, em um mundo que nós estamos condenados a solidão simplesmente por existirem vontades divergentes.



Sua visão de humanidade pode ser tomada como pessimista por alguns. Realismo representativo para outros. O ponto é que ao representar e ver as miudezas dos papeis sociais, Hong Sang deve ter-se deparado com o desprezo. Sua realidade não é despida de alguns quesitos; talvez nem seja propriamente uma realidade, e sim o “esquema das coisas”. Por isso, Filha De Ninguém passa pelo processo de desencanto, algo que o diretor deve ter passado em alguma fase de sua vida.

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