sábado, 15 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rádio Morto



Encabeçado por Raphael M.Andra, Rádio Morto é um projeto que vinha durando alguns anos até o seu mentor resolver fazer uma pausa. Uma pena que só fui conhecer o trabalho agora, com o lançamento do Escatologia Poeta, porque fiquei bem interessado e baixei os outros álbuns. Raphael foi muito gentil em aceitar responder algumas perguntas e na própria entrevista ele explica alguns de seus demônios, influências criativas, etc:
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Tenho ouvido frequentemente o ‘Escatologia Poética’, quais são as principais diferenças que você utilizou no processo de criação entre este e o ‘Testamento’?

R – “Escatologia Poética” é essencialmente canções escolhidas pelo público do Rádio Morto com novos arranjos e novas experimentações, já “Testamento” é um álbum focado no espanto, seja com as letras ou com os sons, em alguns momentos é dark folk como em “Ad Mortem” em outros pós-punk como “Gótica Profana”, meio folk-rap-metal “Misantropia”, meio black-metal “Vultos Satânicos”, é um disco pra causar estranhamento.

Desde o início o Radio Morto tem sido muito prolífico em termos de novas produções, etc. Sem soar clichê, mas durante todos esses anos de produção, você notou algum tipo de amadurecimento enquanto pessoa e artista?

R – Claro que sim, quando comecei com o Rádio Morto era uma extensão do que eu fazia com poesias e reflexões (tinha um blog que chamava “como se fosse o fim” era razoavelmente acessado até, mas tinha uma preocupação que aquilo não atingia quem eu realmente queria, logo exclui), com a música era algo mais amplo, com os sons, misturados as letras conseguia expurgar meus demônios com mais facilidade, mais espontaneamente e tem sido assim até hoje.

Suas letras são repletas de temas “obscuros”, você acha que a fase que está influência na sua composição ou você consegue deixar isso de lado e focar numa temática que tenha mais a cara do Radio Morto?

R – É difícil separar as coisas, mas acredito que no fundo os temas refletem a visão de mundo do autor. Uma das épocas em que mais produzi foi quando estudava filosofia no ano de 2005 e me afundei em reflexões diversas, no final daquele ano estava esgotado e precisei de um retiro – ali escrevi algumas das letras mais soturnas e obscuras possíveis que posteriormente usaria no Rádio Morto, o mesmo aconteceu com o primeiro álbum “El Niño y El Mar” que foi quase todo pautado em um momento muito difícil – um diagnóstico de câncer na família. De uns anos pra cá minha psique está bem melhor e nem por isso perdi essa conexão com o lado obscuro, isso é do individuo, não acredito que perpasse por momentos, mas as fases influenciam, obviamente.

Quando você “sente” que está pronto para realizar um novo álbum? Você tem algum tipo de método para achar que certas músicas devem ser lançadas na mesma gravação?

R – Sinto quando tenho uma necessidade de expressar algo urgente. Tento seguir algum conceito interno, quando começo a escrever já tenho uma ideia por onde perpassa o tema daquele álbum, por exemplo, “Testamento” é pautado na inadequação, no estranhamento, o anterior “Carnificina” é basicamente focado na morte violenta, seja acidentes, assassinatos, suicídios, “Atmosfera” é calcado nos ambientes em que vivemos e como a atmosfera deles influencia em nosso viver.

Pra quem ainda não é chegado no “seu tipo” de música. Que discos você recomendaria?

R – Do Rádio Morto recomendaria 3 em especial – “Ao Vivo em Londrina” por sua característica naturalmente soturna e orgânica, foi gravado em um local pequeno, claustrofóbico, com muita fumaça e pessoas fora de si, “Testamento” por ser o álbum mais experimental no sentido de diversidade sonora e o último “Escatologia Poética” por ser um apanhado de novas experimentações e do que melhor conseguimos fazer durante esses 7 anos. De artistas que influenciaram o Rádio Morto diretamente é um pouco mais complicado, pois nosso som é muito diversificado, mas citaria “Children of God” do Swans, “½ Mensch” do Einstürzende Neubauten e “20 Jazz Funk Greats” do Throbbing Gristle e outros artistas como Current 93 e Death In June, pelo apego as experimentações, desapego aos rótulos e pelas letras - vezes soturnas, vezes nonsense.

Em Escatologia Poética, apesar de todo peso do álbum, as músicas se diferem bastante, algumas mais ‘folk’, outras mais ‘ambiente’. Há algum tipo de esforço para que não soe repetitivo ou é o desenrolar natural?

R – O desenrolar é muito natural, no sentido de não me apegar a gêneros, até gostaria de poder me apegar a um gênero e seguir, ficaria mais coeso, sem dúvida, mas o Rádio Morto se desenvolveu naturalmente como um quebra cabeça, um amigo me enviava um som de bateria, outro uma guitarra distorcida, outro um barulho de sintetizador e aquilo se transformava num Frankenstein sonoro e isso reflete em todos os álbuns.

Diz aí; você gosta de algum tipo de música pop? Qual?

R – Gosto muito de Beatles, Depeche Mode, Titãs (anos 80, início dos 90), The Cure (apesar de gostar muito mais das músicas pós-punk/gótico deles), são quatro tipos de “pop” completamente diferentes, tenho um gosto muito diversificado, mas te confesso que música pop atual não me apetece muito.

Hoje em dia há muitas “tags”, “gêneros”... Você enxerga isso atrapalhando a criação artística?

R – Não, acho que os gêneros servem para nortear, você acaba se interessando inicialmente por determinado artista pelo gênero que classificam. Mas acho que há um exagero nessas tags, novos gêneros estão surgindo e possivelmente caberiam em outros, como Witch House, por exemplo, que é eletrônico ou Darkwave, outros exageros como Sludge Metal Atmosférico, que nada mais é que Post-Metal, enfim, tem sua importância, mas algumas pessoas levam a sério demais o rótulo.

Em Silêncio, é muito repetida “Uma canção pra você...”, foi uma canção para alguém?

R – Na verdade o que digo é “Uma canção pra aquecer...”, mas algumas pessoas já entenderam “Uma canção pra você...” (talvez por um problema técnico na gravação do som), mas isso não deixa de fazer sentido também. Todas as músicas do Rádio Morto são direcionadas para todos e pra ninguém, isso pode soar pedante, mas na verdade raramente fiz uma poesia ou uma letra pensando em alguém especificamente, mas vale pra todas as pessoas que se colocarem naquela situação.

Durante os anos de Rádio Morto, quais foram as reações que você percebeu em relação aos trabalhos?

R – As mais variadas possíveis, de pessoas muito próximas que repudiaram, há pessoas que eu nunca vi que amaram. Acho isso interessantíssimo do ponto de vista de que a arte só diz algo pra quem está disposto a absorvê-la. Não adianta você querer agradar seus amigos ou sua namorada se aquilo que você está expressando é falso, sempre fiz o que achava que devia fazer, por isso nunca me importei muito com as reações, seja com o repúdio ou com os parabéns, isso é indiferente no processo de composição, cada tampa tem a sua panela, assim é com as artes também.

Alguma autocrítica que você faria a seus trabalhos?

R – Muitas, o Rádio Morto não é um som agradável de ouvir em uma perspectiva estética, fazemos uma mistura de gêneros, com produção tosca e letras muitas vezes hostis. Já em uma perspectiva intelectual acredito que deve ser dada uma chance. Não estou dizendo que a música tem que “fazer pensar”, acho isso piegas, mas se tem algo que o Rádio Morto propõe desde seu início é que você reflita, sobre a morte, sobre a vida e sobre tudo o que te cerca.

As histórias nas letras invariavelmente me lembram do Allan Poe, você teve/tem algum tipo de influência da literatura dita maldita?

R – Certamente. Não é raro você encontrar nas letras do Rádio Morto versos de Augusto dos Anjos, Baudelaire e João Cabral de Melo Neto (ainda que este último não seja propriamente um “maldito”). Edgar Allan Poe foi inspiração direta para escrever “Ave Negra”, dentro da literatura e filosofia tenho muitos que me inspiraram, como Freud, Nietzsche e Schopenhauer – estudei 1 ano de filosofia e 2 anos e meio de psicologia, isso mudou muito minha visão de mundo.

A morte, decomposição, misantropia, são temas recorrentes. Você tem alguma fixação por isso?

R – Temas tabus como os que você citou e vários outros como ateísmo, psicopatias e violência, sempre me chamaram atenção, desde que escrevo, há mais de 10 anos esses temas são sempre recorrentes, soam natural pra mim, não sei se isso é uma fixação, não penso nesses temas 24hs por dia, mas acho que é algo que todos deveriam pensar cotidianamente, até pra melhorarem como pessoas e afastarem alguns medos. 

Quais outras formas de arte e estéticas que talvez influenciem no seu trabalho?

R – Sou um amante de todas as artes, estou me formando em Arquitetura e Urbanismo, meu trabalho de TCC é sobre a síntese das artes. Se você olhar um quadro de Bosch, um poema de Rimbaud, a arquitetura de Gaudí, um filme de Billy Wilder ou a música de Chopin vai perceber que o que há de mais comum entre todas elas é o humano, sua capacidade de conflito e sua sensibilidade, isso influencia demais meu trabalho.

Essa produção extremamente lo-fi, sempre foi algo intencional ou se rolasse mais grana você talvez tivesse feito as coisas de outro modo?

R – Inicialmente foi totalmente intencional, pois o projeto surgiu de uma forma completamente espontânea (primeiro com poesias, posteriormente com experimentações sonoras), com o decorrer dos anos cheguei a pensar em ir para um estúdio, mas as condições geográficas (amigos que contribuíam com sons que moravam longe, um em Londrina outro em Porto Alegre, outro no Rio de Janeiro, isso tudo inviabilizou) aliadas a todo um conceito (de ser necro e tosco) fizeram esta ideia emperrar, mas não vou ser hipócrita e negar que se rolasse grana isso já teria sido feito, mas sabemos que no Brasil música experimental é como escrever um livro de poemas - é uma fruta que poucos colherão e menos ainda degustarão. Dei um tempo (indeterminado) com o Rádio Morto justamente para isso, tentar conseguir estrutura para poder futuramente melhorar a produção, já que muitas pessoas que ouviram me dizem que as letras são ok, as experimentações também, mas a produção tosca impede que o projeto avance.

Fale sobre os próximos planos.

R – Com o Rádio Morto haverá uma pausa temporária, isso pode durar alguns anos, mas acho necessária para uma reformulação, talvez volte com uma banda fixa de apoio, minha pretensão é gravar um álbum pesado e com letras mais densas no futuro, para isso necessitaria de uma banda fixa e de preferencia que tocasse um som mais pesado – talvez a minha grande inspiração seja Michael Gira e o Swans, uma grande ambição é ter um selo próprio e que consiga lançar um primeiro álbum nesses moldes e posteriormente isso torne um círculo vicioso (mesmo sabendo que no Brasil esse tipo de som/arte quase não tem público). Enquanto isso vou continuar fazendo meus sons e experimentações com vídeos e música – final do ano passado lancei um álbum com o pseudônimo Kovtun, chamado “The Complete Soundtrack of Suicide” que é dark-ambient feito de colagens sonoras e é quase desconhecido das pessoas que gostam de Rádio Morto, pois não divulguei quase nada – mas já soube de pessoas que ouviram e gostaram na Finlândia e no Japão por exemplo e isso é muito gratificante. Devo trabalhar em um álbum mais folk, com violão e bases dark-ambient pra este ano ainda, mas não sei se será como Kovtun ou outro nome e também tenho uns projetos pra cinema com um amigo cineasta, fazer um documentário sobre música com um tema específico, mas nada muito concreto ainda.


Links de alguns álbuns citados na entrevista:
Ao Vivo em Londrina (2012): http://www.mediafire.com/?3ebaf3vklz3do3e
Kovtun – The Complete Soundtrack of Suicide (2013): http://www.mediafire.com/download/ij19x02x407pu2f
Escatologia Poética (2014): www.mediafire.com/?92b4flr54ncrcg0

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