domingo, 16 de fevereiro de 2014

Dance Of Days- Não Maltrates Teu Coração [2014]



Minha descoberta não veio de estalo, na aurora da vida, só a percebo agora,depois da morte dela”, Fernanda Torres.

Quando decidia largar meu emprego, foi decididamente para não matar meu coração. Sério, aquilo me matava. Ter que conviver com pessoas covardes, que usam o puder como desculpa para seu comportamento mesquinho, era uma tortura a cada dia. Eu tinha sede de outras coisas, de me divertir em shows, tomar cerveja com amigos, porque existe sim amor em SP, você só precisa saber onde encontrá-lo e com quem compartilhá-lo. Estranhava o fato de a vida não ser sempre boa, comecei a duvidar: “por que não tenho o direito de me divertir em tudo o que faço?”. Afinal, quem inventou essa merda de chavão: “a vida não é só diversão”?  Porque eu estava cansado da angústia diária da rotina sufocante, não valia a pena matar os poucos dias que eu tenho na Terra em troca de dinheiro. Eu nunca fui normal, eu nunca precisei ser normal para ser feliz.

Que somos tão vivos, tão novos,
tão cheios do que é bom.
E nessa estrada efêmera
não podemos perder mais nada.

É clichê, mas é verdade: é vida é absurdamente curta. Por que deixar sempre para amanhã? Por que futuros possíveis paraísos e justificar nosso sofrimento terreno nisso? Ou em uma futura carreira? Por que sempre a bosta de uma projeção para um futuro hipotético? Não vale a pena chorar por esses chefes, essas pessoas covardes que tentam toda hora dizer que nosso jeito de viver está errado. Já pararam para reparar que não há nada no olhar dessa gente? Meus olhos brilham e chegam a lacrimejar quando sou tocado por uma música, um livro, filme e lembranças de amigos. Gosto disso e amo estar com essas pessoas. Faz tão bem. Para se transformar o mundo não precisa muito, pelo menos é o que tenho confirmado para mim. É só dizer não a toda convenção institucionalizada que se tornou universal por processos históricos superquestionáveis. É muito mais fácil dizer não do que parece; não ao trabalho fixo que mata todo dia, não ao planejamento de carreira que materializa a felicidade em objetos. Eu fiz isso, disse não. Juro que não sei o que vou fazer daqui para frente, como serão as coisas, como vou viver, ganhar dinheiro, etc. Mas sabem de uma coisa, melhor me foder sabendo que apostei tudo em sonhos de criança do que prosperar em uma dita vida adulta de merda- sendo esculachado por gente covarde- que se sente poderosa por causa de um cargo corporativo.

O que está por trás de meu olhar,
não consigo responder.
Meu coração não pensa!
O fogo que arde os meus ossos,
não consigo esconder.
Meu coração me entrega
e me diz que não acaba aqui.

Fato é que chegamos aqui. De alguma maneira misteriosa, minha vida é formada mais de rabiscos do que linhas; é como se tudo que passou fosse uma fantasia. Mas há histórias boas para se contar. De como eu virei as costas para esse mundo idiota, e quando eu comecei a dizer não para tudo que me massacrava, mais possibilidades boas foram surgindo. Mais gente com quem eu queria me relacionar de verdade. A vida fica muito mais interessante quando você se cerca de gente interessante. As noites passaram a ser melhor. E cada dia parecia uma novidade. Uma incerteza. Viver com certeza é assassinar a maravilha do desconhecido. Demorou muito para eu me reencontrar. Reencontrar-me com aquele garoto, que ficava sozinho, ouvindo rock’n’roll no quarto, e que crescia com medo de terminar abandonado. Hoje posso abraçar a criança que fui e dizer que embora tudo esteja ainda tão confuso e há tanta angústia, que estar sozinho não era ruim, que aquele garoto iria viver coisas fantásticas.

Não chores, oh meu anjo,vem dançar e cuspir nesse mundo.Não chores, oh meu anjo,que essa genteé o excremento dessa vida.

Importante falar um pouco no som do Dance Of Days também, não? Na realidade, não sei se é necessário. DOD é uma dessas bandas que transcendem pelas palavras, cada berro só pode ser explicado verdadeiramente quando se está num show do conjunto. ‘Não Maltrates Teu Coração’ é a banda em seu melhor, alterando entre o punk rock e o hardcore melódico, com letras incríveis que abordam temas que precisamos sim pensar todo dia para não cair na armadilha do mundo corrompido; autoconfiança, solidão, não se render à tendências mercadológicas e resistência.

"Protesto é quando digo
que isso tudo não me desce.
Resistência é quando asseguro
que isso não mais acontece.
Protesto é quando me recuso
a seguir além com isso.
Resistência é quando asseguro
que todos virão comigo."

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