domingo, 23 de fevereiro de 2014

Bohren & Der Club Of Gore- Black Earth [2002]




O homem nasceu para ser livre, e gozar, e foder, e se fundir com outros braços, outras bundas, e peitos, e coxas e paus”, Fernanda Torres.

Eu amo música. Eu gosto de tambores e sons distantes para me conectar com alguma entidade demasiadamente boa para ser nomeada. Nunca fiz teoria musical. Com um pouco de iniciação, pré-disposição e liberdade, fica fácil se submergir em ritmos hipnóticos. No entanto, algumas características de certas bandas ou gêneros chamam mais a atenção. Onde cada nota, acorde ou batida, deve ser ouvida com concentração. Não precisa ser um intelectual acadêmico cabeçudo para entender. Mas como explicar um arquétipo musical onde você se sente invadido por várias sensações? Acarretando no aparecimento de um cosmos diferente até então, como se inaugurasse um novo mundo. Decompondo a realidade objetiva e arremessando a outro estado. Apropriando um panorama estrutural diferente de nossa lógica materialista. Quando nossa concentração está intimamente ligada a cada vibração, cada suspiro e há um intercambio (sim!) entre o que está sendo tocado e o ouvinte. Não é necessariamente algo que você tenha que compreender, mas sim entrar na ciranda e aproveitar. Em seu universo paralelo, e em sua mais de uma hora de execução, sentir um sopro totalmente fresco de sensações.

Esse álbum pode fazer isso. Podemos ouvir “Black Earth” como a narração do transito sensorial. Quando a música apropria-se de nosso imaginário, podemos sentir aquele clima de filme noir, sombras, neblinas. Como se o mundo que repousa na obscuridade nos aliciasse através do belo e calmo saxofone, acompanhado pelo piano pontual. Eu quero dizer, esse álbum comunica para gente que esse mundo não é real, como alguma realidade obrigatória pode se extinguir com um conjunto tão sofisticado de notas? Simplesmente encontrando a satisfação na finalidade da música em si, não é necessário mais nada.

O clima de obscuridade que o álbum impõe, não é um terreno de maldade, perversidade, ou algo do tipo. É como a inauguração de algo novo através de uma jornada noturna pela negatividade do mundo. É tudo tão objetivo, os ecos serão seus companheiros. Prova que não é necessária uma capacidade de virtuose, os sons desnudam-se tão expostos quanto o ouvinte. É um conjunto sonoro para a mente e o espírito. E é algo autentico justamente por isso, estabelece um dialogo simples e profundo com o destinatário, relevando possíveis conhecimentos estéticos e capacidade intelectual. O som é acessível, orgânico, quase palpável. Aí reside sua singularidade, uma música extremamente apurada sem perder a capacidade de simplicidade, beleza e profundidade.

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