domingo, 18 de agosto de 2013

Pedro Almodóvar- Os Amantes Passageiros [2013]



Desde que a vida em si pode ser vista como um voo para lugar nenhum terminando com uma colisão, a nova comédia de Pedro Almodóvar "Os Amantes Passageiros"- cuja qual a equipe e passageiros de um voo comercial aprendem, logo após sair de Madrid, quando o avião enfrenta um potencial desastre- peça para grandes tomadas metafóricas, e que, na maioria do tempo, cumpre o desafio. O filme- ou, melhor, Almodóvar- borbulha ideias, começando com a cena de abertura, estrelando as duas grandes estrelas, Penélope Cruz e Antônio Bandeiras, numa sequência hilária diegética com os clichês cômicos modernos, que surpreendentemente, terá um impacto substancial nos eventos que ocorrerão no ar.

O filme é rico de simbolismo e vitalidade cômica centrado no trio de aeromoças, homens gays quem contrastam com a postura sóbria do piloto e copiloto, com quem dois deles estão tendo um caso. Para começar, a diversão toma lugar na frente do avião- a cabine de controle e a classe executiva- porque os passageiros da classe econômica foram "forçados" a dormir para próprio conforto. E quando as palavras saem causando confusão na classe executiva- incluindo uma dominatrix famosa, um banqueiro falido, um agente de segurança misterioso, uma clarividente virgem, e um ator famoso- a proximidade da morte (mais drogas com coquetel) atua como a sirene da verdade, despejando um raio de segredos e desejos.

Almodóvar claramente tem muito em mente, e preenche isso com claridade e vigor. A troca de passageiros da classe econômica que dormem enquanto a classe executiva sugere caridosamente que sexo é um luxo crucial, um dos maiores provedores de dinheiro e poder. Seu cinismo hedonístico de olhos abertos é sublime, como a desconstrução da prostituição como um serviço inquestionável e crucial para homens poderosos e ricos; em uma contemplação pessoal que a dominatrix encontra sua profissão B; na ironia de um aeroporto vazio, feito de investimentos de um financiador dúbio; no álcool e drogas e o mal maior distante crescente surgindo de sua repressão.

Acima de tudo, a maneira que ele retrata as três aeromoças masculinas, com seus pulsos batendo e maneirismos teatrais, afirma que há alguma coisa como uma cultura gay, uma estética que surge da (mas que não é reduzida à) homossexualidade- e que essa cultura é absolutamente central para nossa ideia de cultura como tal e um solvente universal de liberação sexual (e, por conseguinte, a libertação como tal). Os três comissários de bordo não são em si ricos ou poderosos, mas eles são coadjuvantes constantes e cruciais da cena de poder. Ao vincular sexo e poder, é como se Almodóvar estivesse revestindo causa e efeito- sugerindo que o espírito do excesso é também o espírito do empreendimento, que caminha para prazer, sucesso, e poder são unidos inextricavelmente.

É apto falar de Os Amantes Passageiros em uma época crucial de transformação dos valores, em que fundamentalistas religiosos reacionários insistem na profusão de seus estereótipos pré-concebidos em um estado oficialmente laico. Sexo não é mais privilégio de poder político no Brasil; aqui, os altos cargos estão sob o domínio principalmente de fiéis monogâmicos. Nações Europeias ainda tendem a deixar as vidas privadas de figuras públicas fora da equação (e fora do noticiário), e talvez seja o porquê de Almodóvar- mesmo que ele enfatize vidas luxuriosas e prazeres privilegiados- também chamar a atenção para a trilha que as vítimas deixam no chão após alçar voo.

Ele faz na sequência mais bela e surpreendente do filme, localizada em Madrid, que é construída de uma conversa telefone entre o ator famoso e sua mulher desiludida, quem está em uma situação desesperada que é muito suculenta para eu contar o que ocorre e estragar, e que resulta em uma coincidência incrível que faz um dos momentos mais inspirados de todos os filmes nesse ano. A sequência é tão clara em seu pathos, pois é efervescente na sua comédia, escurecendo a busca do prazer com a sombra da tragédia, e culmina na viúva cautelosa o arrebatamento paralelamente oposto ao prazer insaciado dos passageiros. É que os passageiros já estão despidos das preocupações mundanas enquanto na terra as pessoas ainda vivem seus problemas demasiadamente concretos e objetivos (ou simplesmente inventados e encarados como problemas)!

Primeiramente, eu suspeitei que Almodóvar estivesse tão envolto nas ideias do filme que não havia restado muita energia- ou não sentiu a necessidade de se devotar muito- à filmagem. Para toda a exibição do filme do grande gesto romântico na face do desastre iminente, sua filmagem raramente se sentia imediata, dando a sensação de um teste de atuação ante a um diretor que planeja realizar uma obra pertinente. O filme oferece, de passagem, alguns momentos estilizados cheios de alegria- como a coreografia sincronizada (diegética com os clichês de comédia modernos) dos comissários de bordo durante as demonstrações de segurança, o fascínio da tela da cabine de controle e luzes da pista, o brilho de uma fuselagem, e vários exuberantes ângulos inclinados- mas eles são todos demasiadamente breves e subdesenvolvidos, como decorações alinhadas que parecem incidentais para a ação. Não é que o filme seja demasiadamente estilizado, sua estilização é insuficiente.

Em meio à sessão, eu me encontrei sentindo falta do cinismo simbólico do Claude Chabrol em A Comédia do Poder, outra história sobre poder e sexo, muito menos do que os filmes de Rainer Werner Fassbinder, com seu entendimento cruel de sexo enquanto poder. Mas, em última análise, Almodóvar é um cineasta muito mais moralista (não na concepção fundamentalista) do que qualquer um destes; se Fassbinder e Chabrol oferecem estilos de cinema unificados, radicais e aperfeiçoados, é, em parte, em função que o seu sentido de dor e prazer é totalmente separado do seu senso de justiça. Almodóvar não deixar seu cinismo ir muito longe (ele ainda acredita numa espécie de transcendência dos prazeres), seus filmes exaltam o calor e a civilidade mundana, mas para pegar emprestada uma frase de Jean Cocteau em Orfeu, ele sabe o quão longe ir muito longe. Em A Pele Que Habito, a abrangência do seu tema parece escapar, para depois recuperar o controle no tiro final do filme, ele deixa a protagonista escapar da prisão, da enfermidade. Aqui, ele permanece no controle e fica do lado de uma decência humanista defensiva, o que é admirável para a república, mas frequentemente contrasta com estéticas, as quais arrancam teorias extremas de experiência e possibilidade (i)moral.

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