segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ian McEwan (A Criança No Tempo, 1987)- O fracasso como origem no vazio ideológico.

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”, Albert Camus.

Houve um tempo melhor, houve a infância que não vivemos como lembramos, mas a nostalgia torna a vida não vivida carnal. Houve alguma origem (e aqui não trataremos de mitos) que nos fez chegar onde estamos. Há também uma necessidade não diagnosticada da massa atribuir autores às ideologias específicas- e aí, Ian McEwan representa na figura de Darke o tema da ambivalência e representação ideológica. Sua literatura trata de problemas contemporâneos porque lida com fracassos- o escritor intelectual que acaba realizando livros infantis, a professora de física que acaba servindo o marido político que não tem ideais específicos- as personagens que transitam por A Criança No Tempo já aceitaram o fracasso como intrínseco a existência par excellence. A estrutura não linear parece ressaltar a onipotência do fracasso em situações supostamente desconexas entre si- talvez o mito da origem resida em fracassos.

Um dos mais destacados autores contemporâneos, Ian nasceu na Inglaterra (21 de Junho de 1948). Passou parte de sua infância no Extremo Oriente, na Alemanha e no Norte da África. Conquistou prêmios importantes como o Man Booker. Em A Criança No Tempo, o autor relata uma relação fria com seu país de origem, uma Nação de pessoas perdidas que não sabem bem o que fazem. O escritor que vive tomando uísque e assiste esporte, o político que não sabe se deve defender o lado liberal ou conservador, mas que sustenta o argumento que “do lado que estiver, vai vencer!”.

O livro atua como uma roda viva descrevendo situações sem preocupar-se com a sequência lógico-linear destas. Uma faceta subterraneamente desenvolvida são os anos adolescentes do protagonista, Stephen, em que desdenhava da ordem do “mundo adulto”. Já na meia-idade, lembra-se ironicamente de seus anos de formação, enquanto toma uma cerveja com seu pai depois de ter arrumado o gramado. Aqui não há uma crítica a paradoxos vividos, só a constatação latente do desajuste que a vida não só oferece como impõe. Os conflitos das personagens são destacados mesmo dessa forma, sem grandes exaltações, ironias ou coisas do tipo; até os embates são desajustados, quietos, passivos. Para estas não importa muito a liberdade, elas vivem enclausuradas em momentos, por isso a surpresa do primeiro-ministro ao saber que Darke, político pretensioso com rápida ascensão na carreira, retira-se para viver em sua casa de campo. A Criança No Tempo é uma constatação do desajuste permanente que implica ser humano. Na literatura de McEwan é verificado como o passar dos anos não sobredestaca  acontecimentos (desde os mais espantosos como a filha para sempre perdida, até memórias simples de férias de verão). O livro, portanto, é um relato da condição memorialística sobrepondo-se a um presente que sempre parece nulo.

Como no primeiro romance de Stephen, que ironicamente torna-se um livro infantil, nesses relatos oferecidos por Ian, não sabemos exatamente seu foco ou localização. O texto aparentemente leve carrega consigo devaneios de profundo impacto em Stephen- sonhos sobre a infância, imagens passadas borradas. Nelson Rodrigues falava que “não se faz literatura com bons sentimentos”, mas Nelson já pensava em protagonistas com caráter positivistas, oras; Stephen não sabe o que habita! MEwan já afirmou ser fã de Irène Némirovsky, e os casos de Stephen talvez antecipem o perdido Dario Asfar (O Senhor Das Almas). O sentido de desgaste, um anti-herói que se locomove sem muita ideia do tempo, por isso a estrutura toda fragmentada para representar alguém que não passa de estilhaços de vidro. A experiência vivida pode parecer brutalmente real enquanto acompanhamos seu momento de tédio insignificante nas reuniões comandadas por Lords e importantes intelectuais.

O leitor lentamente percebe ao longo do romance o círculo vicioso que a vida de Stephen se torna. Mesmo com as pequenas (dês) venturas que seguem, parece que nosso herói está compelido em dias vazios tomando uísque assistindo as Olimpíadas. Apesar do tédio das reuniões, ou da visita à casa dos pais, o que salva Stephen são situações que não tem que enfrentar a si mesmo. Não por acaso, sua vida melhora (ou não se torna tão infeliz e deprimente) quando -depois de uma situação que é das mais tristes e brutais dentro da literatura, ao ter noção exata da perda da filha- ele começa a praticar árabe e aulas de tênis. As entrelinhas preparadas por McEwan não são claras, você pode querer enfrentar o destino, mas talvez este apenas ofereça o que sempre cedeu.


McEwan em Berlim, 2005

Perdido no cotidiano

Enquanto avançamos no romance, nasce uma dúvida, Stephen é realmente passivo ao ponto de não agir bruscamente nem quando perde sua filha, um lunático quando compra presentes para uma criança que já não existe, ou apenas alguém incrustado na densidade do cotidiano e todo desgaste rotineiro? Ele merece nossa empatia? Até quando está deprimido, não conseguimos evitar certa comicidade no homem rabugento assistindo programas imbecis sobre casais na televisão. Mas depois de sua prova de fogo- a noção exata da perda da filha- quando cai no abismo que há tempos evitava, Stephen reencontra alicerces. McEwan pinta um cenário em uma cidade que troca de clima assim com a montanha-russa que está Stephen. Seu subconsciente não é evidenciado, não há aqui monólogos internos reveladores, e sim situações confusas porque a vida é confusa!

A narrativa é sobre a complexidade que é reerguer-se de uma perda. Mesmo que os signos de vida estejam evidentemente claros- a política para Darke, os livros infantis para Stephen- as personagens estão todas confusas no que deveria ser o habitat natural destas, não temos hospedeiro e inventamos nossa salvação, é o que parece dizer McEwan. As pessoas que percorrem a história não têm matizes, mesmo assim estão presas. Ao mesmo tempo em que a vida de Stephen fica insuportável, parece que tudo pesa para o leitor, nada mais é fácil e ninguém é ingênuo, a não ser o ranzinza que perdeu sua filha no supermercado. A história é a alegoria perfeita sobre confundir sentimentos, transformar situações.

A abordagem crítica também envolve o social como pano de fundo, uma Inglaterra rodeada por mendigos. O protagonista da história sente em dever com eles, sabe da suposta relação entre seu confortável estilo de vida e a decadência social que o país atravessa, mesmo assim teme. Em certa cena, Stephen dá seu casaco por pena para uma moradora de rua, mas se arrepende disso poucas horas depois, quando fica com frio em um chalé. Enquanto esse lado é traçado na trama, vamos vendo os insights que acontecem com ele, lembranças aparentemente desconexas. Somos levados a perceber que na vida não há recompensas, não há troca equivalente. Freud nos fez perceber a complicada linguagem intricada que é a mente humana, que tudo é desenvolvido em função de supostos traumas, Stephen é um caso típico freudiano. Mas não é uma interpretação rasteira o que acontece, Stephen já admitira certos fracassos antes mesmo de perder a filha, e a palavra culpa não é realçada na história, aliás, nem parece ser o maior mal do protagonista. Quando adolescente este teve uma vida intensa, afinal, por que raios ele vagarosamente se tornou um depressivo bêbado? Às vezes ele deseja a mulher que faz parte da conferência sobre um manual de puericultura, mas isso passa rapidamente porque ele já não engancha em nenhum futuro possível. Seu isolamento não parece ser consequência do seu sentimento de culpa, e sim a simples aceitação do que a vida oferece. A perda, nesse sentido, é a vida, e como lidamos com ela a partir de situações traumáticas é o maior desafio.

Principalmente porque as assombrações não desaparecem, o que resta é conviver com o fardo que se chama memória. McEwan ilustra nossos eternos desvios em aceitar a dor. A qualidade do romance reside nas personagens buscando o tempo inteiro algo para se ancorar- Dark nos livros infantis, a mãe de Kate na música- e errando constantemente, como na dolorosa cena em que se descobre um homem morto debaixo da árvore em meio à neve. A literatura de Ian ressalta a disfunção onipresente que carregamos conosco, mas também aborda certa gentileza austera, como o maquinista que por simples vontade aceita dar carona a Stephen na emocionante sequência final. McEwan não traça um romance limite, mas sim analisa os micro-universos das pessoas que circulam por uma Londres complexa. Sua literatura alerta para a sobrevivência perante ilusões, traumas e o presente.

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