segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Alan Parker - O Beijo Do Otário


"O Beijo Do Otário" é um romance duro e maravilhoso à medida em que narra um trajeto aparentemente inevitável entre diversas crises que viriam a formar o que conhece-se por Estados Unidos Da América. Allan Parker é, predominantemente, alguém que trabalha com cortes (não à toa é um diretor de cinema) e ambienta suas cenas em rápidas sucessões. Numa época em que os destino parece estar na mão dos liberais ou dos neoconservadores, o embrionário alvorecer norte-americano é caracterizado,  em "O Beijo Do Otário", com um individualismo cru e paralelamente cômico (algo que David Foster Wallace já havia detectado tanto em seus ensaios como no épico "Graça Infinita").
                                                                                                          
Tommy Moran é o protagonista e característico anti-herói que inundou as narrativas romanescas pós segunda guerra mundial. Na espécie de "tour" que essa personagem nos leva por todos os Estados Unidos, percebe-se um sistema de valores culminantemente individualista e sarcástico que vai germinar e implodir na Grande Depressão De 1929. "O Beijo Do Otário" é, à sua maneira, um romance de formação. Pois acompanha-se a vida de Moran desde que ele se separa precocemente de sua família e transforma-se num exímio batedor de carteiras que percorre todo o país fazendo este trabalho. Parker utiliza um procedimento narrativo fragmentado e não necessariamente contínuo, até porque o automatismo aparente de Tommy até certa parte de sua vida (quando se apaixona por Effie) não sugeriria o contrário. Os méritos do romance é impor uma característica "dura" em Moran que aos poucos percebe-se como mecanismo de defesa muito mais forjado do que intrínseco (e não é mais fácil na vida prosseguir com o fingimento?). O que Parker faz, e talvez seja seu maior mérito no livro, é mostrar que há certa desolação em risco ao se abandonar o fingimento e realmente dar a face à vida.

Como pode alguém como Moran ser doce e como pode alguém como Effie mentir? Como poder abandonar o que se foi a vida inteira por um amor idílico e como não ruir quando este se mostrar abalado?

Tommy é o herói e o narrador, é ele quem dá voz aos recantos de um EUA esquecido e, quando percebe uma chance de redenção, tenta acessá-la. Moran é uma pessoa relativamente "suave" se comparada com os outros tantos trogloditas masculinos que a história apresenta. Pode-se tirar uma questão do livro: como escapar dos acontecimentos que aparentam ser seu destino?

O próprio ato de "dizer", "contar histórias" se sobressai não apenas (embora predominantemente) na primeira pessoa, mas no tanto de histórias entrecruzadas que o protagonista percebe ao seu redor- ele custosamente recusa ser parte destas. Em sua estrada da desolação, Tommy é abado pelo excesso de narrativas e, estando de frente à tantos contos dolorosos, ele não quer ser parte disso. Ele é como alguém que perspicazmente toma nota das referências de formação dos valores norte-americanos. Parker impõe uma narrativa convencional para um protagonista "outsider" e talvez apenas no excesso de formalidades que o romance não atinja totalmente seu projeto estético.

Se para Tommy falta aceitação de seus sentimentos, para Parker faltou um pouco de inquietação no olhar para manter o romance tão pulsante como é em seus melhores momentos. Eu não quero afirmar que o autor quis escrever um grande romance, mas há de se ter algum rigor. Principalmente quando é uma história que trata tantos anos da vida de alguém sem mergulhos vertiginosos em sua psique ou escombros emocionais. É impossível para o protagonista ter a liberdade tanto almejada no livro se seu próprio deus ex-machina restringe suas possibilidades. Porque mesmo nos momentos mais preciosos, há ausência de invasão que alce as personagens aos emblemas mais fundamentais do comportamento humano.


Não se trata de derrapadas autorais, mas do que o livro muitas vezes esboçou ser. Há os grandes momentos, mas não os grandes questionamentos. Porque passar para as palavras o cerne de uma estrutura é muito difícil. Felizmente, tem-se muitos vislumbres.

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