segunda-feira, 27 de abril de 2015

Stereocilia - Slow Motion [2015]

Erosão: As estruturas estão sendo destruídas. O desgaste é nítido. Estamos sendo transportados, vagarosamente, para um terreno desconhecido. Os guias são essas linhas distorcidas, que promovem ecos, são tomadas por eles. A guitarra sozinha, seus versos simples.

Sombras: Se há sombras, há uma projeção. Mas o que fazer quando as projeções são desconhecidas também? É possível existir a sombra do que não existe? Mas o que, então, se nossos atos passados, nossas frustrações irreparáveis. Nós mudamos tanto e, mesmo assim, não reconhecemos nossas formas. É como estranhar a própria mão. É como se a repetição desses sons fosse a única orientação em um vazio enorme. Mas há espaço aqui. Isso as repetições sugerem! Há terreno bastante para construções. Queremos tanto sair do determinismo histórico e quando essa possibilidade surge... As sombras são companheiras de travessias, nômades de erros distantes também. Vestígios esquecidos que se unem ao nosso imenso desconhecimento.

Refrações: Mudanças de direções, as sombras sofrem erosões também. Atravessa-se o espelho e de repente somos outros. Outros caminhos.

Corrente Submarina: Seriam as sombras projeções do que está submerso? Os sintetizadores ocupam o espaço, a guitarra que já versava sozinha na primeira faixa está envolta em repetições. A solidão é uma repetição. Um hábito que gera mais hábitos sem os quais nos deformamos e estamos dispersos. Engraçado como a solidão evoca nossos passos como se eles fossem uma espécie de origem. Engraçado como não nos lembramos do fluxo, mas a água continua correndo. A água quente, as névoas que a sobrepõem. Tudo é frágil e consequência e acaso.


Diferente do cinema, a lentidão na música é o próprio movimento (e a recusa/aceitação da ideia convencional de movimentação). Em Slow Motion, somos introduzidos a uma temporalidade formada entre forças opostas que estabelecem um enigma. Não se pode “perceber” nada nesse EP, apenas ter impressões. O que forma a impressão de lentidão? O que liga uma música a uma medida temporal? As coisas se movimentam e nós percebemos de outro modo, nada é exato. Pensamos não um passado, mas uma interpretação atual do que cremos que um dia existiu. Nossos passos, uma borboleta voando, as ondas se quebrando. A vida é uma formulação de quadros antigos se renovando por olhos cegos apreendendo pouco porque insistem em ver o mundo ainda com medidas. Não quero dizer que Stereocilia aponte um mundo inaugural e sem medidas. Mas que seu ato criativo insere uma rachadura na ideia de tempo e pode infiltrar uma visão para olhar além das concepções básicas. Não é uma recusa ao modo de construir as coisas, mas sim uma tentativa honesta de elaborar uma visão menos domesticada. Sem negar em instante algum que esta é influenciada. Mas, também, sem se aquietar em nenhum momento, porque há sempre algo fluindo.

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