segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mz.412 – Hekatomb [2015]

Não há dúvida que a trilogia lançada em meados da década de 90 pelo  Maschinenzimmer 412 foi essencial para estabelecer o pós industrial- explorando um território limítrofe  entre Black metal, industrial, poewr eletronics e dark ambient. Criando obras extremamente perturbadoras, pode-se afirmar sem engano que o Mz. 412 é responsável pelos lançamentos mais extremos da música nesse mais de vinte e cinco anos. In Nomine Dei Nostri Satanas Luciferi Excelsi [1995] com loops obscuros e pesados, samples distantes e instrumental ao vivo, atmosfera ritualística e pequenas passagens mais calmas e serenas, tudo isso em pouco mais de uma hora. Burning the Temple of God [1996] tem aquela capa clássica da igreja pegando fogo, e é um ritual que relembra velhos clássicos da música industrial, em conjunto com um Black metal cru, e um dos primeiros registros entre o Black metal e o noise. Nordik Battle Signs [1999] fecha a trilogia com formas puras e extremas de expressão, profundamente inspiradora (a seu modo, convenhamos) e envolvente. O legado deixado pelo Mz.412 se dissolve em timbres perversos, onde a interação entre elementos extremos idealizam ambientes ocultos de forma extremamente sensorial.

No último dois de março, o MZ 412 lançou pelo selo inglês Cold Spring a gravação de uma desempenho ritualístico executado há quatro anos, na lendária The Garage, em Londres. A apresentação ao vivo marcou a reinterpretação do vasto material acumulado nos últimos vinte e três anos. É quatorze faixas, que são indicadas como atos e seguidas de algarismos romanos. Essa repaginação, mais do que uma forma de atualizar a visão musical, se apresenta como um embrutecimento daquelas faixas. Ou seja, é como se elas tivessem, de certa forma, mais “pobres”.

A claustrofobia ganha maior aderência, maior tato. É como se todos esses anos de produção, toda essa desolação somada, a angústia, a perversão e o caos fossem nos enfiado goela abaixo, sem dó. Imaginem todas as almas que rastejaram e elas agora nos fechando em um quarto escuro, sufocado pelo desespero. É um tipo de música que essencialmente ofende o estomago, onde as diferentes camadas sonoras (difícil identificar qual é a mais agressiva) abrasam ironicamente essas pseudo fortalezas em terrenos áridos, distantes, muito, muito cruéis. Como se apertar o play fosse abrir a caixa de pandora, mas em um local onde não há ninguém que possa compartilhar essa experiência, você está muito sozinho e apenas esses gritos de fantasmas distantes te acompanham. Penso nesses ruídos e relaciono com dizimação em massa, tropas marchando, soldados decepados, nos estupros cometidos, na maldade e na dor. É uma verdadeira carnificina sem escapatória, onde ninguém sobreviverá. Sem dúvidas, ninguém consegue ficar indiferente a esse tipo de catarse sonora.

São mimetizadas marchas militares com poderosos e implacáveis fluxos sonoros, onde a dizimação coletiva simula batalhas doentias onde ninguém escapa. Metais se distendendo e perfurando qualquer coisa que ouse passar na sua frente, ou atmosferas mais “calmas”, como se procurasse algum conforto existencial nessas manifestações malignas e só descobrisse um vazio, evocando experiências extras corpóreas, vozes demoníacas, gravações de chamadas a partir de rituais esotéricos exibidas em flashs durante a apresentação, combinado com gritos perfurados que originam mil manifestações eletrônicas. São episódios hipnóticos onde podemos ver uma maré negra que sobe gradualmente ao som de tambores de guerra e um relâmpago silencia toda essa miséria humana. Pode-se, por outra ótica, ver isso como um rito, uma passagem que libera em algo, digamos, mais essencial. Mas é um atravessamento extremamente duro, desconfortável e duvido, de verdade, que muitos aguentem presenciar uma apresentação dessas até o final.


Um trabalho como Hekatomb denuncia também uma movimentação poderosa de “música subterrânea”, nesse caso em particular, ligada ao pós-industrial sueco. Como se representasse o pior na descida dolorosa de Dante ao inferno, onde decididamente não há caminho verdadeiro, em uma selva tenebrosa, numa sinistra floresta onde nos deparamos com tristeza, solidão e desânimo. Lembro-me da movimentação interessante que ocorre no Brasil de deslocamentos parecidos e acho muito importante que as pessoas tomem nota desse registro. Registro de um local extremo e claustrofóbico, que existe com uma força derradeira.

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