sexta-feira, 10 de abril de 2015

Saturndust – Saturndust [2015]

Nós somos poeira cósmica. O universo é infinito. Até ai, nada de essencialmente novo. O problema é que nós teorizamos tudo- o gelo, a rocha, até mesmo os anéis de Saturno. As estrelas servem de orientação para as pessoas que passam sua vida no mar, mesmo em uma época em que a tecnologia predomina (ou assim querem garantir as pessoas do Ocidente). Mas há uma áurea inviolável, há um laço secreto que cegamente determina a movimentação das entidades que habitam o universo. E olha que maravilha, não saber nada sobre isso, não saber nada sobre o universo que nos habita. “Não somos melhores do que o universo, somos parte do universo. Estamos no universo e o universo está em nós”, Neil deGrasse Tyson.

Essa noção de espaço se prende aferradamente em nosso cérebro durante a execução de Saturndust. As transições entre as canções, os riffs esticados, como a própria ideia de expansão do universo, assim como essa atmosfera de transmissões espaciais estimulada pelas distorções- todas essas ambiências causam um deslocamento, estabelecendo uma estranha orientação; sabemos que estamos em determinado ponto do infinito, mas exatamente onde?

Os solos de Hyperion refletem essa grandiloquência da banda. É tudo enorme em Saturndust, os ecos dos instrumentos, a extensão de canções que se modificam em detalhes que transformam suas estruturas sem que percebamos exatamente onde as coisas mudaram. Como encarar uma paisagem que vai perdendo sua iluminação da primeira manhã até, muito lentamente, ganhar a escuridão noturna.

Mas não se enganem com esse fenômeno que eu tento descrever. As coisas são pesadas nesse álbum- sessões longas e arrastadas, os riffs da guitarra que são épicos e em certos momentos atingem níveis comoventes e as paredes sonoras massivas, onde os sintetizadores, a bateria, o baixo e o vocal erguem certa unidade que parece muito, muito difícil de transpor. Ao longo do disco, esse peso que nos fascina também é capaz de nos levar ao distúrbio, à perdição. Como eu disse, esse álbum de certa forma nos localiza, mas nos localiza em um lugar não tão grato e não tão bem estabelecido, em um ponto de um universo infinito. Agonizando entre a poeira cósmica. São nesses momentos que a sonoridade nos atravessa e nos dá mesmo a impressão de que não vai sobrar absolutamente nada.

De forma brusca, podemos perceber o que as tremuladas da guitarra junto com o vocal berrante anunciam no início do disco; uma trilha para a poeira, uma trilha sob o espetáculo das estrelas e através dos perigos terrestres. Em teoria, essa absolutização (estender e arrastar o som de tal forma que parece, muitas vezes, sem fim) reivindica não uma forma monolítica, mas sim abre a nossa subjetividade para manifestação de tais fenômenos.


Esses 45 minutos que o Saturndust nos entrega parece muito mais. Parece a dissolução- entre toda a sonoridade decididamente suja- em um universo cuja poeira é a principal matéria. Matéria que nos faz vivo e vai continuar depois de nossa morte, inevitavelmente.

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