sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Viet Cong - Viet Cong [2015]

A música “orientada” pela guitarra tem sido declarada como morta não é de hoje. Mas o que raios isso significa, “música orientada pela guitarra”? Podemos usar como contraponto, os excelentes trabalhos realizados nesse testemunho, mais precisamente, o desempenho incrível de Dinucci em seus vários projetos musicais. O que nos remete ao trabalho dos canadenses do Viet Cong. Qual o mérito na focalização da guitarra aqui? A estética deles realmente “exige” isso ou temos apenas um apanhado do legado do Joy Division, Sonic Youth ou Television? O primeiro disco deles é uma amostragem da tentativa de “sair” de suas influências e adentrar um terreno de criação própria.

Caímos em 2015 e quando uma banda tem influências tão incendiárias, imagino que fica impossível não tentar fazer um disco que abranja todas essas possibilidades e desencadeamentos, mas o necessário aqui é “discursar” entre a brecha que essas alternativas estimulam. Afinal, nós já estivemos nesse terreno, já ouvimos bandas maravilhosas (especialmente no “boom” do começo dos anos 1980) apresentar essa neurose, tensão, selvageria e expressar esses qualitativos em sonoridades que soam urgentes, catárticas. Nós já estivemos nesse terreno e sempre que surge uma banda clamando isso, pensamos, “hei, caras, qual é? Já fizeram isso e provavelmente fizeram melhor”.

A questão é que o Viet Cong pulsa e soa urgente. Sua música não é determinada pelas influências, mas pelas sensações que estas causam. Pensamos na determinação do caos e os elementos que o solidificam; os vocais desorientados enquanto a bateria inicia uma marcha e os ruídos da guitarra evidenciam uma perca- os drones da guitarra que encontram uma melodia mais pop e acessível. Mas a questão aqui não é a “acessibilidade” do disco, não poderia ser. Temos uma obra sem serenidade alguma, mas que não representa “tiros cegos”, não. Eles nem tem um alvo pra falar a verdade. Eles querem colocar a porra do Gang Of Four sob a subjetividade deles. Eles não vêm problema nenhum nisso e, quando é determinado de forma tão feroz, eu também não.

Temos uma marcha rumo ao nada que é desprovida de niilismo. Os sintetizadores claustrofóbicos de March Of Progress confirmam isso. Não é uma jornada de maturidade, mas o álbum apresenta “sete maneiras” de explodir, de se expressar- cuja única finalidade é esse núcleo descomposto que emerge em cada canção e morre nela mesma, sem necessidades, sem objetivos.

Devo lembrar, porém, que nesse farol incessante que tenta capturar cada ponto que “pode” ser focalizado, temos o tema “morte” que tange o disco todo. Antes de ser o Viet Cong, dois membros da banda formavam o Women, cuja morte de seu guitarrista, Chris Reimer, proporcionou o término da banda. Então, compreendemos um pouco algumas explosões e de como esse assunto, embora não destaque o disco, surge como uma sombra sempre à espreita e fugidia.


Agora, retorno ao ponto inicial e pergunto “por que ainda crer em Deus, ops, na música orientada pela guitarra”? Eu penso nesse álbum existindo com os grandes nomes do começo dos anos 1980, mas também o interpreto como algum absolutamente contemporâneo, na briga constante entre “simples retrô” e uma articulação própria que inaugura elementos como caos, catarse, morte. Talvez a “música orientada pela guitarra” não tenha mias um por que, mesmo. Mas quanto a mim e principalmente a galera do Viet Cong- estamos pouco cagando.

Nenhum comentário:

Postar um comentário