quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Bjork – Vulnicura [2015]

Se o sofrimento é matéria-prima para muitas obras, então estaria Bjork jogando os mesmos jogos? Vejo esse disco como uma casca fechada em torno de si. É um lançamento que exige um rito, um comprometimento dos ouvintes. Ele não se desenvolve sozinho. As sessões de corda trabalham com os elementos eletrônicos, coexistem, porém com finalidades talvez não tão óbvias. A primeira faixa já antecipa a catarse posterior, Bjork vem com sua voz alta e desequilibrada, em ataques constantes- contra o coro de vozes, contra o violino perdido, em conjunto com o ambiente construído pelo acompanhamento eletrônico. Em Vulnicura, apenas duas faixas não tem mais que seis minutos e ao longo dessas nove músicas, nós encontramos uma coleção bem considerável onde o “etéreo” das cordas é envolvido por uma aura eletrônica, produzida pelo sempre competente Arca. Soa como um absoluto estilhaçado, decodificado e arrastado durante praticamente uma hora pela visão esperançosa e caustica de Bjork.

Que solidão e coração despedaçado são temas comuns no pop não temos dúvida, a diferença de Bjork é que ela tem uma perspicácia muito poética no tocante a esses assuntos (poética como iminência, como rompimento do mundo planejado e arquitetado). Se para Martin Amis a literatura é uma guerra contra o clichê, podemos dizer que ela encara a música do mesmo jeito. Bjork versa sobre os abismos não do ponto de vista da autoajuda barata que corrói o pop contemporâneo, mas sob a perspectiva de estar “inteira” e “quebrada” ao mesmo tempo. São situações limítrofes, pois o eu lírico tem emoções sem limites, teme as obsessões apocalípticas das pessoas que lhe cercam. Gera muito desconforto essas constatações, um mundo ruído em um ciclo sem fim. Ao mesmo tempo em que a voz de Bjork se ergue com uma paixão enorme, ela ao mesmo tempo tem raiva, se submete, é desequilibrada. Ela é um dos raros exemplos de como manejar a voz sob seu tecnicismo e mesmo assim não perder a carga dramática que sua música exige.

As cordas sustentam o “sofrimento” de Bjork, e as partes eletrônicas existem como contraponto e, às vezes, tomam controle. Uma “redução” a esses dois elementos e o atrito constante (a batalha constante de Bjork para sair de um estado de miséria e solidão) configuram o embate de Vulnicura. Essa espécie de redução violenta das estruturas formuladas da música comercial, uma alquimia em que ecoa uma liberdade indesejada pela artista, afinal, o que se fazer com a liberdade quando não há a possibilidade de redenção? Isso me deixa exausto, desgastado e é realmente um disco sobre desgaste. Não é como se o disco fosse focalizado nisso. Mais parece que é o rumo inevitável para a cantora. A intensidade das revelações de Bjork tornam as audições em um rito de angústia, um retorno à memórias não queridas e dolorosas. Cada música em si já tem seu peso, mas juntas, elas ficam excessivamente pesadas, ancoradas em um porto solitário, abandonado. Não há salvação, não há redenção. Não terá música acessível, não terá um escape- esse ambiente está carregado por uma alma vazia, um ente que vaga pela ruína das imagens, pela impossibilidade das palavras, pelo lago negro e gelado. Essa é a obra mais pesada e densa de Bjork, a que mais abusa de estruturas não convencionais também. Mas ela não faz isso por mero experimentalismo, mas parece uma exigência de algo que antecede ela mesma ou sua fonte criativa. Mesmo nas partes em que parece que as nuvens vão se abrir e tornar o tempo mais calmo, nós temos a implantação de dúvidas, temos a impressão de que nada será o suficiente, de que nossos esforços foram idiotas.


Vulnicura é um imenso corpo sonoro, cujas fraquezas emocionais são contrárias da edificação instrumental. As intricadas texturas colocam toda pressão sobre uma desorientada Bjork, em um deserto que parece interminável. Isso explica sua exaustão, seu longo período- temos um terreno em que as combinações abafam o sujeito em medo, desconhecimento. Enfim, morte. Vulnicura não apresenta nada “essencialmente” novo para quem acompanhava a carreira de Bjork. Mas é a maior exploração do sofrimento que a cantora já fez. E isso já é muito, muito pesado.

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