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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Meus 60 discos favoritos de 2015

Foi um ano incrível. Os artistas mais radicais se mantiveram em sua proposta e continuaram fazendo músicas que desafia abissalmente modelos convencionais, eu ouvi pouco emo por motivo de não me identificar mais tanto, a música brasileira continua avançando em seus diversos eixos; improviso, post-rock, noise e vanguarda paulista. Kendrick Lamar revirou praticamente todos os meios especializados lançando um disco complexo que é mais do que muitas pessoas, inclusive fãs, querem reduzir.

Pessoalmente, foi um ano importante, um ano de afirmação e muitos desses discos foram companheiros, verdadeiros amigos. Esperançosamente você goste de algum deles.
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60- Yarn/Wire and Pete Swanson - Eliminated Artist

Se trata, sobretudo, de um delírio em tempos que uma normalidade domina todos os charts de melhores discos do ano.
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59 - Glenn Kotche - Ilimaq

Pode-se encarar Ilimaq como um rito, uma tentativa genuína de aproximação a um discurso que cubra todos os pontos de uma obra, e é justamente na espantosa técnica de Kotche que o disco destoa para um discurso vibrante. Adams exclama categoricamente seu conceito e aproveita do talento de Kotche para fazê-lo. Resultados esperados não é o foco de Adams, ao invés suas abordagens transgridem construções musicais comuns para mirar sempre em uma totalidade, mesmo que abstrata e/ou invisível.
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58 - Various Artists - Diários emocionais vol.4

Mesmo que não seja nossa culpa, o tempo sempre vai deixar algo incompleto. Algum livro que juramos que íamos terminar, mas ficou esquecido em algum canto de nossa velha casa. É um projeto, em sua forma, ambicioso e influenciado por uma das coisas que mudaram a cara do rock independente (a coleção “Emo Diaries”, da Deep Elm). Não há quem não possa reconhecer que houve muita gente disposta a falar sobre o que parecia impossível em 2015.
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57 - Jlin - Dark Energy

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56 - Lupe Fiasco - Tetsuo & Youth

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55 - Kreng - The Summoner

The Summoner pode ser encarado como uma trilha sonora que vai culminar na aceitação- até lá, vamos passar pela negação, raiva, negociação, depressão e evocação. Mas evocar o que? Qual o ponto que converge essas frustrações em uma aceitação? Esse álbum reflete os estágios pós-perda de alguém próximo, em transes melancólicos e silenciosos de alguém que está nitidamente desgastado e parece ter na criação o único meio de expressar uma dor nostálgica que também é solidão e isolamento. O universo de Kreng não visa à redenção nem uma cura, apenas reflete um mundo interno arrasado.
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54 - Amargo - Processo de purificação


Esse álbum do Amargo contém os elementos que ainda me cativam na busca por “música esquisita”. Processo de purificação é o mesmo tempo repetido diversas vezes e tentando violar conceitos como “pecado”, ”condenação”, etc. O Amargo expande sua dissonância para fragmentar e incomodar nossas convenções. E assim é feito.
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53 - Astronauta Marinho Menino - Sereia

Menino Sereia não é um apelo a “técnica” musical, e sim quer comprovar um ponto de vista que encontra alegria na manifestação das coisas (dos sons, no caso). É maravilhoso que isso aconteça porque esse disco exige outras escutadas. Ele consegue radiar sem simples abordagens, ele consegue ser acessível enquanto não é “mais do mesmo”. Uma zona mística entre folclore, senso comum e experimentações sonoras gestadas na observação de um ambiente que simplesmente se desenvolve.
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52 - Bixiga 70 - Bixiga 70

A relevância que essa produção oferece hoje é mais do que clara. E principalmente, é muito importante que as memórias de cada investigação musical que o Bixiga 70 realiza sejam trazidas a tona e celebradas. E eles celebram bastante, lembrando que sua discografia é uma paleta de comemorações.
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51 - The Unthanks - Mount the Air

Para ser claro, Mount the Air tem tudo para ser um disco revisionista monótono, com letras tão insossas que valem uma vomitada. Curiosamente não é. Tem-se aqui a elaboração de uma escuridão que contrapõe todas as expectativas.
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50 -  Cidadão Instigado - Fortaleza

A narração inteira desse disco é sobre as tentativas de reconhecimentos; em vagabundos, em músicas antigas. Na tentativa vã de se controlar enquanto queremos nos libertar.
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49  - Olivia Block - Aberration of Light

É um contexto em que o crescimento gradual do volume implica em uma oscilação no ponto principal. Com sua infiltração e “transferência” de eixo-central, a dificuldade de “Aberration Of Light” reside justamente na resistência de Olivia em não repetir procedimentos.
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48 - Disasterpeace - It Follows

Problemas mais profundos que um “horror superficial” emerge; identidade, localização, reconhecimento. Ouçam em um quarto escuro, para que todos os signos sejam mais “essenciais” e mesmo em seu inferno, mais belos.
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47 - Odradek - Homúnculo Vol. 3

O Odradek tem a moral de não “repetir” mesmos seus instantes áureos porque sabe que a construção que eles optaram é sempre de uma novidade surpreendente. Homúnculo traz acima de tudo uma tensão e tudo que pode envolver ambientes tensos- a guitarra fritando, o cinismo de alguma das letras, as jams que progridem e transmutam de forma implacável, as viradas loucas da bateria. Tocando o que esses rapazes tocam, eles podiam cair no limbo do mero “exibicionismo”, mas a construção desse EP implica em um não ostracismo evidente. Falei da tensão, mas a tensão de Homúnculo é aquele de que “sempre algo vai acontecer” e isso devido ao mérito da banda adicionar mudanças constantes em uma dinâmica estrutural que surge sempre algo “novo”. Novidade que nem sempre é tão aceita num mundo que todos ouvem “apenas o que gostam”, mas é um desafio que merece ser encarado.
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46 - WarHorse - As Heaven Turns to Ash... [reissue]

Os membros seguiram para outras bandas, mas é inegável que As Heaven Turns To Ash merecia mais atenção dos fãs de música extrema, porque tem todas as características que nos aprisionam em estéticas tão radicais, adicionando certa dose de fascínio em temas totalmente pessimistas, ainda assim descobrindo encantamento nessas questões. Encantamento indicado nas faixas de menor duração, que exibem que o Warhorse não é só “morte”, mas que também há escapismos. E o processo que o paraíso se transforma em cinzas é maravilhoso.
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45 - Kamasi Washington - The Epic

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44 - Duda Brack - É


Pela pouca idade, muitas pessoas certamente pré-julgariam alguma “ingenuidade” no comportamento de Duda. O que, obviamente, não ocorre. Brack busca uma voz própria a despeito de todas as contrariedades do mundo, que são colocadas na música. É uma cantora de desafios. Mas ela se entrega tanto a cada canção, que o estímulo se confunde com uma vontade absoluta de provocar tanto o ouvinte como o próprio instrumental, que caracteriza Duda como uma líder de banda nata. Essa essência de puxar limites é a sensação que “É” enquadra. Não serão meras apropriações de composições de outrem, mas esforços pesados em uma direção para além do que aponta o senso comum. Tudo isso, vale lembrar, num álbum de estreia.
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43 - Timbre - Sun & Moon

Todo o percurso de uma hora e vinte desse disco é na verdade uma rotação em torno do mesmo lugar. É um álbum de insistência e paciência. Mas Timbre recorre a um método que pulveriza qualquer chance de monotonia- ela entrega há esses mesmos ciclos diários uma contemplação composta por devoção e incertezas. Esse aglutinado de sensações carrega imagens tão necessárias para evitar qualquer repressão, em um mundo onde oposições tão radicais têm de coexistir. E se a existência já carrega contradições angustiantes e pesadas, como também não se maravilhar pela simples possibilidade de tais disparidades estarem dispostas?
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42 - Siba - De baile solto

A “diversidade” da população pernambucana não é celebrada apenas por sua vastidão. Siba se debruça e produz cenas precisas e através delas (ou seja, da própria experiência) comemora tais fenômenos. Por tudo isso, falar sobre “investigação” seria reduzir o que Siba vem construindo com sua obra há anos. Essa que vem se desenvolvendo em um corpo sonoro que comanda os “mergulhos” que o compositor crava pra afirmar não só a si mesmo, mas também uma população que não pode ser expressa senão por tamanha significância.
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41 - Kammarheit - The Nest

Muitos tentam, mas poucos realmente conseguem evidenciar o que está “oculto”, submerso. Kammarheit trata dos elementos sombrios como eles merecem; fascínio, dúvidas e com um respeito fenomenológico. Pode parecer muito sombrio e até triste ouvir “The Nest”, mas o que Boström constrói é uma ode ao deslumbramento com o desconhecido. Ou seja, pode-se celebrar que nem tudo ao nosso redor é limitado e preso em manifestações pré-concebidas.
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40 - Nonsemble - Go Seigen vs. Fujisawa Kuranosuke

Embora o disco se baseie em um jogo japonês, não espere uma música influenciada pelo oriente. Até onde eu sei, todas as noções de composição utilizadas por Chris dialogam claramente com o ocidente. Parece que cada ideia nesse álbum nasceu pequena e foi trabalhada exaustivamente até poder ser apresentada de fato como estética, em que todo o clímax pode ser experimentado como consequência natural.
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39 - This Lonely Crowd - Meraki

“Meraki” é, ao mesmo tempo, um contraponto e uma continuação de “Möbius And The Healing Process”. Os vocais foram excluídos, mas não é como se tivéssemos mais peso instrumental; há uma combinação que evidencia a transformação do conjunto. Meraki, a palavra, é um verbo sem tradução pro português, que define algo como “fazer ou aprender com paixão, com amor”. A This Lonely Crowd aprendeu seu ofício com o tempo. A arte, mais uma vez, está impecável e torna-se necessária à medida que compreendemos e ouvimos mais o disco; um bioma carregado de dualidades essenciais.
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38- Heather Leigh - I Abused Animal

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37 - Passo Torto & Ná Ozzetti - Thiago França

A voz de Ná Ozzetti esculpe um plano, à primeira vista, confuso quando equilibrada com os acordes do Passo Torto. Mas esse desequilíbrio é apenas aparente. Fiquemos tranquilos, a música brasileira – em toda sua abrangência – está ainda desbravando novos caminhos, descobrindo novas saídas.
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36 - Metá Metá - Metá Metá

O terreno do Metá Metá é expansivo e ofensivo por natureza, é como se toda a agressividade (as duas primeiras músicas do EP são como um legítimo soco na cara) abusasse das (des)conexões entre guitarra e sopro, sob as evocações de Juçara, rumo a um legítimo desencontro em que o “resultado” é sempre indefinido. A escolha de uma música das Mercenárias, “Me Perco Nesse Tempo” (do “Cadê As Armas?”, de 1987), reflete essa postura mais incisiva do conjunto.
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35 - Michel Banabila / Oene van Geel - Music for Viola and Electronics II

Passando por toda a obra Banabila (onde Spherics talvez seja a mudança completa de rumo) temos contrariedades inerentes à visão complexa que um artista tem da música. Onde as expectativas possíveis se equivocam a cada lançamento. Mas repito, é um corpo sonoro poderoso.
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34 - Cadu Tenório & Eduardo Manso - Casebre

Talvez o charme principal de Casebre seja essa mistura entre realidade (a respiração prolongada da faixa-título) e imagéticas que os sons propõem. Mais do que “construir um clima de terror”, a dupla consegue verdadeiramente causar certa aversão nos ouvintes. A questão do horror não se trata apenas da violência sonora, mas sim como não há nenhuma possibilidade de “progresso” nesse lançamento, são sentimentos conflituosos que esses sons transmitem! É estranho porque depois da audição de Casebre, eu senti muitas coisas esquecidas. É uma espécie de sensação que só esse disco dá acesso completo. Lógico, cada obra é “única” por si, mas uma falta clara de adjetivos para esse registro revela todo conflito ao qual me referi. Só ouvindo coisas como o final hipertenso da faixa-título que temos acesso para o estado de Casebre, principalmente com fones de ouvido; há uma saturação de microelementos e é justamente nesse ponto que sentimos uma profunda inconstância.
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33 - Satanique Samba Trio - Mó Bad

Não é só o modelo de música que o Satanique apresenta que causa estranhamento, mas sim a coerência com os últimos lançamentos e com a contínua evolução do conjunto enquanto desconstrutor de formas estabelecidas.
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32 - Max Corbacho - Splendid Labyrinths

Isso não é música ambiente pra “relaxar”, as possibilidades criadas pro Corbacho exigem enfrentamentos, atravessamento; é como uma semente que só pode brotar de quem habita a dúvida e o incerto. É um campo de tensão em que tudo se contorce e tudo volta. As paisagens sonoras criadas por Max reconhecem a incapacidade de uma perfeição, enquanto trabalham pra uma produção imagética sempre viva e fluída, todas as representações em “Splendid Labyrinths” transpiram perguntas, é um álbum denso que aprisiona o ouvinte em suas movimentações.
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31 - Ava Rocha - Ava Patrya Yndia Yracema

Todo o transe em AVA PATRYA YNDIA YRACEMA evoca um gosto pelos limites da vida, em que se pensar nos sentimentos doces canaliza lembranças que se convergem para uma expressão tão abrangente do presente. Mas Ava fornece esse aspecto a partir da sua intimidade, que se mostra profunda. E se tal análise se expressa por uma voz tão contundente como a dela, que nunca se debruça sobre a monotonia, melhor ainda.
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30 - Saturndust  -Saturndust

Esses 45 minutos que o Saturndust nos entrega parece muito mais. Parece a dissolução- entre toda a sonoridade decididamente suja- em um universo cuja poeira é a principal matéria. Matéria que nos faz vivo e vai continuar depois de nossa morte, inevitavelmente.
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29 - Jacob Garchik - Ye Olde

Cada faixa em Ye Olde constrói um pequeno pedaço da história que Garchik nos propõe. São músicas com a duração pequena se comparado com o que se faz hoje em dia no jazz livre, e elas encontram seu ponto de clímax rapidamente ao mesmo tempo em que essa explosão é realmente curta. As guitarras sincopadas muitas vezes iniciam o trabalho como se realmente tivéssemos na década de 70, até que partes de improvisação dos três guitarristas retomam o sentido mais abstrato que toda a obra de Garchik tem abraçado. A realeza é palpável com a incrível marcha clássica (que só não é propriamente erudita pelas divagações elétricas) na última faixa. É um verdadeiro coroamento de tudo o que o disco propôs.
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28 - Mz.412 - Hekatomb

Um trabalho como Hekatomb denuncia também uma movimentação poderosa de “música subterrânea”, nesse caso em particular, ligada ao pós-industrial sueco. Como se representasse o pior na descida dolorosa de Dante ao inferno, onde decididamente não há caminho verdadeiro, em uma selva tenebrosa, numa sinistra floresta onde nos deparamos com tristeza, solidão e desânimo. Lembro-me da movimentação interessante que ocorre no Brasil de deslocamentos parecidos e acho muito importante que as pessoas tomem nota desse registro. Registro de um local extremo e claustrofóbico, que existe com uma força derradeira.
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27 - Better Leave Town - Better Leave Town

O Better Leave Town opta por expressar as visões e a partir daí (dessas microssituações sempre específicas) discorrer sobre os temas diários que pesam sobre nossos ombros. Mais do que um extravaso, são reflexões sobre essa coisa estranha que chama passado e essa entidade estranha que por acaso tem um corpo. São determinações densas profundamente pessoais, no atrito constante entre o ritmo enérgico mais “cativante” e uma espécie de sobriedade introspectiva, onde os riffs altos soam exatamente essa ambiguidade. Tenho muita convicção de que se você costuma gostar das bandas voltadas ao “emo” que posto nesse blog, você vai sentir um compartilhamento com o BLT. Cada música gera um campo de análise e são analises empíricas, atravessadas e que se expressam na música para poder garantir uma existência, também. Se não captamos quem éramos anteriormente, então mudamos um pouco e o mundo girou. E é com a honestidade e crueza que encontramos nesse disco que podemos ter certeza que as coisas estão mudando. Para onde, não se sabe.
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26 - Theoria - Vamos desistir do Brasil

Por sua própria natureza, é difícil fazer uma resenha de Vamos Desistir Do Brasil, porém para mim ficou um pouco inevitável uma vez que eu me peguei ouvindo muito o disco, que é um registro que anuncia a produção significativa de músicas do tipo no Brasil e que é um álbum capaz de estimular. É uma atmosfera opressiva contaminada em grandes doses de humor que também revelam um precipício que atingimos e que talvez tudo isso não tenha volta. Tanto que é árduo “entrar” no disco e suportar suas diversas dissonâncias. Não se trata de um “teatro” de agressividade, é mais complexo que isso. Estamos miseráveis em vários aspectos e o que vamos fazer? Nesse instante, a dor que o Theoria inflige parece ser a necessária para qualquer despertar. Um compadecimento que vamos ter que suportar, porque acordar nem sempre é agradável.
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25 - Jair Naves - Trovões a me atingir

É sem um itinerário fixo que avança a obra de Jair Naves. Acompanhamos imagens que são formadas por angústia, sofrimento, amor, expectativas... Tornou-se rotina pra mim, desde que comecei com esse negócio de gostar muito de música, ter suas canções como abrigo para os diversos momentos. É que eu acredito em testemunhos tão entregues e tão intensos. As fraquezas versadas e expostas pressionam porque não queremos frustrar ninguém, não queremos produzir a dor. É desse ponto que Jair discursa e faz sua arte, do ponto de uma incerteza absoluta (pessoalmente, não esteticamente) em um mundo que parece nos bloquear a todo instante. É tudo tão repentino e não podermos prever os trovões que vão nos atingir. Mas se há receptáculo, há vida. E isso é o suficiente.
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24 - Juçara Marçal & Cadu Tenório - Anganga

A junção entre duas figuras importantíssimas da música subterrânea brasileira é um resgate, mas também um pronunciamento da sensibilidade estética de cada um. Anganga é um disco que vai permanecer como ícone quando futuras gerações pesquisarem o que aconteceu de relevante musicalmente em 2015.
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23 - Merzbow, Mats Gustafsson, Balázs Pándi & Thurston Moore - Cuts of Guilt, Cuts Deeper 

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22 - Joshua Abrams - Magnetoception

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21 - Ricardo Donoso - Machine to Machine

Tenho sensações dúbias em relação a esse álbum, mas fiquei uma semana sem escutar e depois que ouvi, pensei, "tem que estar entre os melhores do ano". Outro de Donoso, que tem aparição dupla nessa lista.
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20 - Bell Witch - Four Phantoms

Por mais estranho que possa parecer, “Four Phantoms” é um disco de desintoxicação. Quando o “doom metal” para de estetizar a agonia pra mostrar porque ela pode ser utilizada pra afirmar a vida.
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19 - Viet Cong - Viet Cong

Eu penso nesse álbum existindo com os grandes nomes do começo dos anos 1980, mas também o interpreto como algum absolutamente contemporâneo, na briga constante entre “simples retrô” e uma articulação própria que inaugura elementos como caos, catarse, morte. Talvez a “música orientada pela guitarra” não tenha mais um por que, mesmo. Mas quanto a mim e principalmente a galera do Viet Cong- estamos pouco cagando.
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18 - Magma - Šlaǧ Tanz

É uma música cuja natureza continua desafiadora e eu não recomendo isso para quem não esteja disposto. É um surto harmônico, cantando em um dialeto incompreensível com represálias à raça humana. Sim! Em um mundo onde a saturação das mídias especializadas apontam muitas variantes comercias de “esquisito”, o Magma é sempre uma boa referência para justificar o termo em seu mais glorioso ímpeto. Encontramos agressividade sônica muito diferente do “noise pop” que circula nos charts mais populares- nós encontramos o termo “bizarro” ampliado e definido musicalmente. E se alguém insistir na boba pergunta, “o que eles estão dizendo?”, revertemos a pergunta: “o que nossa música tradicional tem dito, mesmo?”.
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17 - Matana Roberts - Coin Coin Chapter Three: River Run Thee

Matana rompe fronteiras musicais para estender e continuar na esteira de grandes nomes da vanguarda musical. No momento, é difícil achar música mais relevante sendo feita em algum outro lugar do mundo que não na cabeça de Roberts.
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16 - Boogarins - Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos

Até as repetições podem ser distorcidas, podem ser revisitadas e mostram que o passado se repete (em outras músicas) que o Boogarins lança seu segundo disco. É difícil mesmo de deixar uma impressão que não seja confusa sobre o último disco da banda. Ao mesmo tempo em que temos um disco muito parecido com o primeiro, é impossível negar o talento dos rapazes com os reverbs. Pode-se esperar que eles acrescentassem mais elementos em sua sonoridade nos futuros trabalhos, e que a recorrência da “estética psicodélica” seja outro bom escape deles e não apenas o único e principal. Seja o que for, “Manual[...]” ainda expõe uma banda que realiza sons instigantes em sua zona de conforto.
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15 - Mobile Suit Belial - Kokoro

Com Kokoro, o Mobile realiza o que muitos detratores apontariam o dedo sem pensar duas vezes. Curiosamente, suas armas são os que estes mais repudiam. Não há tempo para recuar e pensar duas vezes. As remixes vulgares estão ai para ofender quem tem que ficar ofendido, mas Kokoro transcende a mera usurpação e escava um buraco ele próprio. E escavar buracos é o que entendo como arte, pelo menos a arte necessária, aquela aberta e sem defesas.
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14 - Cássio Figueiredo - Diário

emos um período, mas estranhamente, a música não trabalha para esse bloco de tempo. Ela revela outra coisa. Que tudo pode acontecer agora e que exatamente nada vai acontecer. Há a continuidade dos dias, mas uma inércia que justifica alterações abruptas e rompem esse conceito de linearidade. O anúncio de uma melodia pode morrer antes mesmo dela ganhar vida.
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13 - Ricardo Donoso - Saravá Exu

Penso em Saravá Exu com um disco de retaliação. Um álbum que tem seus ambientes cuidadosamente estruturados para serem esmagados depois. Reduzidos em pó. Penso em cada renascimento e cada rompimento como poesia, como a aniquilação da estagnação. Nasce a beleza e o perverso absurdo. Uma histeria tensa que é produto de uma enorme inquietação por parte de Donoso, onde se especula ciclos que convivem com as pluralidades disformes que caracteriza a sonoridade.
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12 - Lê Almeida - Paraleloplasmos

Espero, de verdade, que as pessoas se reconheçam nesse álbum. Que elas virem amigas do artista dissipado que reside nesse disco. Precisamos de companheiros de travessia; qualquer forma, ser viva ou inanimada, que nos ajude. Porque, como em Paraleloplasmos, viver é um exercício de retornos frustrantes, partidas tristes- passar por um local sozinho em que você costumava ir com determinada pessoa. De repente, a ausência se torna pesadíssima. De repente, você se grudou tanto a outro que não reconhece sua carne, suas feridas, as marcas na sua pele. Eis o motivo de precisarmos de ajuda.
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11 - Björk - Vulnicura

Vulnicura é um imenso corpo sonoro, cujas fraquezas emocionais são contrárias da edificação instrumental. As intricadas texturas colocam toda pressão sobre uma desorientada Bjork, em um deserto que parece interminável. Isso explica sua exaustão, seu longo período- temos um terreno em que as combinações abafam o sujeito em medo, desconhecimento. Enfim, morte. Vulnicura não apresenta nada “essencialmente” novo para quem acompanhava a carreira de Bjork. Mas é a maior exploração do sofrimento que a cantora já fez. E isso já é muito, muito pesado.
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10 - Kovtun - Androginóforo

Androginóforo é um experimento do Kovtun, mas também uma afirmação. Sem objetivo aparente, ele se ergue e exterioriza que há uma música significativa sendo realizada no Brasil que não é demonstrada em charts, na Wire ou qualquer outro veículo. Mas que ela existe e é substancial. Que ela não hesita e que ela não se explica- ela só pode atravessar e ser atravessada. Espero que essas irrupções aconteçam com quer ouvir o disco. Comigo aconteceu.
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09 - Yuri Gagarin - At the Center of All Infinity

Todo o peso do conjunto tem um alvo claro, é óbvio o trabalho duro pra construção de cada música. Mas é a introdução dos sintetizadores que transformam “At The Center Of All Infinity” em uma jornada que o ouvinte precisa voltar mais vezes. A exploração técnica das guitarras seriam (apesar de muitíssimo complexas) elementos limitantes e estagnariam uma banda com tanto potencial. Uma pena que eles ainda exploram tão pouco elementos como caos e destruição. O que faz com que fiquemos com poucas dúvidas em relação ao disco. E, ao mesmo tempo em que exijo discos que ergam mais questões do que respostas, não dá para negar que a afirmação do Yuri Gagarin seja óbvia e evidente.
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08 - Hateyourmusic- tenha bons sonhos.

Nós queremos morrer, nós queremos viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se maravilhar com o vazio.
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07 - Elza - A mulher do fim do mundo

Elza quer cantar. O mundo ainda não tem fim porque ela pode cantar, o resto não importa muito. E quando ela diz “me deixem cantar até o fim”, ela não pede permissão. Ela simplesmente avisa o que vai fazer. E em A mulher do fim do mundo ela faz demais, ela homenageia nossa modernidade decadente. A sonoridade do álbum é difícil de catalogar, e quem não está por dentro das novas vertentes brasileiras pode sair um pouco perdido. Elza chega para entregar o tipo de samba que ainda pode ter alguma relevância, ela surge para mostrar a tremenda importância que um disco desafiador pode ter. Ela atira pra cima de nós, sem nenhum arrependimento, a constatação de música provocante e intricada, como uma água quente impossível de desviar.
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06 - Julia Holter - Have You in My Wilderness

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05 - Lil Ugly Mane - Third Side of Tape

A combinação esparsa desse disco, curiosamente, destoa com as seis faixas anunciadas. Alguém não informado sobre a quantidade de música certamente chutaria muito mais. Mas com Lil nada é “óbvio”, e as diversas naturezas de Third Side of Tape certamente anunciam mais que um artista incomodado com a produção da música contemporânea. Elas revelam um homem trabalhando muito para construir uma assinatura autêntica. Não se trata, portanto, de localização temporal e exibicionismo de conhecimento. Para Lil, o tempo é outra invenção e todas as invenções tem uma origem em comum- a capacidade humana de distorções a realidade em forma de música. É como estar em um túnel onde nunca se esteve antes, e as únicas armas que temos para enfrentar essa incerteza são nossas próprias experiências e nossas memórias. O caminho já está perdido de qualquer forma. Third Side of Tape é o melhor trabalho de Lil porque além do todos os elementos anteriores que já deixavam sua música muito atrativa, evidenciam que Mane tem um legado muito poderoso, que vai lentamente se concretizando em cada lançamento
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04 - Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly

Kendrick Lamar não age como idiota e mira muito alto. TPAB é com certeza símbolo da complexidade que Kendrick estetiza; a fama, as tentações, as raízes, a indústria musical, ídolos, as revoltas da população negra nos EUA.Com um fechamento brilhante, Kendrick assume um legado e mostra que pode enfrentar as responsabilidades; transformando em música todas as dúvidas que isso gera.
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03 - J.-P. Caron - Breviário

É a enunciação do impronunciável, justamente a soma de passos em um corredor de uma casa deserta, com a aflição do poeta que bate desesperadamente em sua máquina de escrever pra exaurir algo realmente verdadeiro em suas palavras, com dias que tudo está um saco e só resta amaldiçoar tudo. É isso que “Breviário” me representa.
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02 - Mount Eerie - Sauna

Se o pensamento nasce com o sujeito, Elverum está mais interessado no que precede esses conceitos. Ele não apresenta a futilidade de um mundo sem sentido e absurdo, mas a maravilha do vazio, onde as coisas podem se manifestar e, por sorte, podemos testemunhá-las.
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01- The Wonder Years - No Closer to Heaven

Talvez NCTH seja um disco compreensível apenas para os fãs da banda, mas aqui acompanhamos lado a lado as batalhas do eu-lírico. Se nos outros discos tínhamos elementos como ataques de pânico, a cidade natal e a perda da estabilidade, NCTH é uma visita constante ao tema da morte de pessoas próximas ou ídolos e o que podemos aprender com tudo isso.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Yarn/Wire – Currents Vol. 3 (2015)

O projeto musical Yarn/Wire se trata da bilateralidade (são dois pianos e duas percussões) e das simetrias e cortes que essa junção pode causar. Os frutos disso são construções que soam inaugurais e só por isso o conjunto já merece o louvor. Vol. 3 representa, obviamente, a terceira série no trabalho Currents que o grupo vem apresentando há alguns anos e exibe um “médium” inicial, cinco oscilações consecutivas, e a peça final que é a integração desses elementos. É um desempenho ao vivo que mantém o legado do conjunto na tentativa contínua de transitar entre terrenos novos, se aproveitando da injeção de elementos exteriores e teoricamente “estranhos” ao quarteto.

O grupo absorve essas teóricas excentricidades e as transformam em uma continuidade surpreendentemente estável e com firmeza conduzem as peças para os pontos mais macro que elas, inicialmente, não pareciam ter resistência para.


Os elementos eletrônicos interagem com um piano desatado em curiosos movimentos de conforto/retaliação. É uma convivência muito engraçada. Ao mesmo tempo em que a combinação dessas execuções vai crescendo, os cortes também vão soando mais severos e mais pontuais. Essas combinações que eu nunca tinha ouvido são só possíveis ao ligar elementos teoricamente mais tradicionais (piano e percussão) à tecnologia MIDI e uma investigação inventiva de quais caminhos isso pode tomar. O piano realiza, em paralelo, os ataques mais “delirantes” e também é responsável por trazer uma espécie de serenidade em alguns momentos. Currents Vol. 3 se trata, sobretudo, de um delírio em tempos que uma normalidade domina todos os charts de melhores discos do ano.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ricardo Donoso - Machine to Machine

Impressiona muito a coerência dos últimos lançamentos de Donoso no decorrer dos últimos anos; é sempre essa áurea essa celeste, como se outros seres (trajados às vezes como espíritos ou entidades) fossem invadir nossos corpos. Sua obra é repleta de trabalhos atmosféricos arquitetadamente construídos sob a influência da utilização de sintetizadores.

Machine to Machine é realmente aquele típico trabalho que é melhor ouvir sozinho, com os fones de ouvido, imaginando cenários possíveis para a grandiloquência que é o clímax da primeira peça. O álbum, inicialmente, se revela como algo que vai conter muitas insinuações e detalhes que só podem ser percebidos depois de algumas ouvidas. O problema é que os “defeitos” nunca vão ser concretizados enquanto potência e vão permanecer no plano do interminável. A música de Donoso é muito pautada em riscos, mas aqui eles não soam perigosos; parecem efeitos que existem por uma aleatoriedade estética que Donoso raramente mostrou em sua carreira. Infelizmente, essa falta de força e fibra está em todo Machine to Machine.

Não é um disco coesivo como Saravá Exu em que a unidade da progressão sonora convivia com a repetição sem corromper nenhum propósito de Donoso. E não é nem que algo soe “corrompido” em Machine to Machine, é que não há ponto de ligação entre os microssistemas que o formam. Não é um processo de derretimento como o antecessor e pra falar a verdade, eu tenho alguma dificuldade para saber sobre o que se trata exatamente. Há, no entanto, em alguns momentos, uma pluralidade de sons que aponta redenções para o disco (elas só podiam acontecer mais). Aliás, é essa pluralidade que pode rasgar a faceta mais “frágil” da música de Donoso e aproveita melhor seu potencial.

Não é no conceito que Machine to Machine se equivoca, mas sim na falta de um cerne que realmente represente toda a história intencionada. Há intenção, mas não há evidências dessa intenção. Não há cortes, não há interrupção. Ao mesmo tempo, nada parece intencionalmente contínuo. Parecem sons aleatórios. Os movimentos não soam vivos (e não é realmente como se a morbidez fosse a intenção). Sabemos a vocação de Donoso para a retaliação, para a estruturação cuidadosa de ambientes que depois são esmagados.


Sei que soa um pouco impreciso simplesmente falar que não há naturalidade na movimentação de Machine to Machine, mas realmente me parece um apanhado de sons que normalmente (pela facilidade de Donoso) transitariam em unidade sem problemas. As máquinas de Machine to Machine existem por existir; elas não constroem nada, elas não retaliam nada e elas não ameaçam nada. A música não se mostra soberana; é evidente que tem alguém manipulando e que estamos sendo manipulados.

Kid Millions – The Sanguine Cadaver (2015)

Kid Millions é membro da corajosa banda Oneida que consiste em criar um ambiente enorme, urbano e repetitivo- como se caminhássemos no mesmo túnel infinitamente. É uma ambientação poderosa, com drones épicos e grooves bem colocados. O conceito de The Sanguine Cadaver é extremamente pautado nessa repetição; é um andamento lento e introspectivo em uma atmosfera que as diferenças são apenas insinuadas. Mas aqui Kid se mostra como compositor máximo e não apenas um exímio baterista, e percebe-se que as dissonâncias que o lavaram a criar um trabalho tão denso como The Sanguine Cadaver não seriam tão bem aproveitadas no Oneida. Porque enquanto a banda constrói esse ambiente enorme, as repetições de Kid são de enclausuramento.


Pegue os imprevistos “controlados” do Swans e os insiram em um ambiente diário e nada megalomaníaco. Kid reconhece nas variações que “surgem” a validação para se expressar; ele é um artista das brechas que, mesmo assim, consegue moldar uma massa sonora gigantesca com isso (a forma como ele usa as baterias eu nunca tinha ouvido). Não há um grande marco divisor em The Sanguine Cadaver, mas chega a ser constrangedor (para outros compositores) a maneira que Kid transita facilmente para uma explosão contida e abafada, uma interiorização de observações externas. As gravações de campo criam uma atmosfera, esse disco é uma afirmação do que quer que seja essa atmosfera íntima. Tudo isso é destruído na segunda parte. Temos uma intimidade mais objetiva, com Millions fazendo o que faz de melhor; improvisar na bateria. Pode-se enxergar toda a construção da primeira parte como uma pergunta. Felizmente, Millions tem uma resposta.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

John Luther Adams / Glenn Kotche – Ilimaq (2015)

Que a programação da música clássica não é mais é a mesma temos testemunhado ano após ano na realização do “faça você mesmo” nesse tipo de composição. Em seus últimos trabalhos, é notório o exame do compositor Adams nos intrincados padrões que conectam os organismos e os ambientes em que vivem. Além desses micros padrões, Adams busca por uma totalidade desses padrões e os macros sistemas que essa soma forma. Em busca de uma totalidade que fosse registrada de forma minimalista, Kotche é encarregado de todo o trabalho percussivo em Ilimaq.

Em Become Ocean, Adams criou uma peça que representava uma sobreposição de ondas, e nessa tentativa de imersão ecológica que ele foi além de uma romantização da natureza para expor um desastre de ordem natural. Esse ponto de vista ecológico desconsidera conceitos humanos como aquecimento global para refletir a grande indiferença da natureza perante todas nossas preocupações mundanas. Become Ocean foi muito premiada e se tornou uma linha divisória na abordagem ecológica que Adams criava sua música até então. A evocação de imagens que representava a correnteza marítima é a tentativa de totalizar o oceano explicando seus micros sistemas. A experimentação de Kotche no terreno da música clássica se baseou em sua carreira na manipulação eletrônica, sem uma abordagem tão “conceitual” quanto a de Adams. Isso além dos trabalhos colaborativos de Glenn, que além de ser membro de Wilco sempre trabalha com compositores importantes em terrenos radicais e que frequentemente apelam para o livre improviso.

Adam considera o ecossistema como uma rede de sistemas, uma multiplicidade complexa de elementos que funcionam juntos como um todo. Para ele, a essência da música não reside em padrões simples de harmonia, melodia, ritmo e timbre. É a totalidade sonora que configura a plenitude da música. Por ser extremamente conceitual e Kotche pautado muito na intuição, que Ilimaq é um momento de quebra de barreiras para ambos os artistas.

O título do disco se refere a uma jornada espiritual mas, conhecendo parte do trabalho teórico de Adams, acredito que o mais justo seja chamar de jornada ecológica. São múltiplos elementos que tentam se integrar em micro sistemas para formar uma totalidade- as gravações de campo, as manipulações eletrônicas, a percussão. É somente essa sobrecarga sonora que pode sintetizar uma unidade. Mais do que a estrutura calma visível, Adams compôs algo que confronta suas obras anteriores e tem numa espécie de “minimalismo totalista” a catarse para suas revindicações entre a suposta aproximação de música/ecologia.

Os movimentos que compõe Ilimaq se baseiam em vários níveis de velocidade e desaceleração- pode-se dizer que a ideia de integração de Adams é justamente nessa dissonância de velocidades. As oscilações de Kotche mostram-se importantíssimas para as ambições de Adams então; não há possibilidade de totalidade sem os imprevistos. Esse ambiente é frequentemente contaminado por interrupções eletrônicas e gravações naturais. A totalidade é imprevisível. Mesmo assim essas seções indeterminadas e esses encontros não catalogados constroem uma totalidade desinforme, onde o trabalho gradual de Kotche ao mesmo tempo, desestabiliza e constrói esse panorama. Tantos elementos que se encontram; é filtrada essa aproximação máxima à ecologia que Adams defende em seus ensaios.


Pode-se encarar Ilimaq como um rito, uma tentativa genuína de aproximação a um discurso que cubra todos os pontos de uma obra, e é justamente na espantosa técnica de Kotche que o disco destoa para um discurso vibrante. Adams exclama categoricamente seu conceito e aproveita do talento de Kotche para fazê-lo. Resultados esperados não é o foco de Adams, ao invés suas abordagens transgridem construções musicais comuns para mirar sempre em uma totalidade, mesmo que abstrata e/ou invisível.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Boogarins - Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos

A variação de gêneros no Brasil tem sido cada vez mais evidenciada pela dissolução do império “sertanejo” e afins. Pensem que, no imaginário de certa juventude, ficar difícil fazer uma associação livre entre lugares físicos e gêneros musicais. Na verdade, constrói-se um labirinto de influências e ramificações, de tradições desconstruídas e também prolongadas. Pode-se encontrar essa difusão sonora em Goiânia, terra dos Boogarins. Levando para o lado positivo do verbo, a banda tenta realmente “inventar” sonoridades novas através de caminhos conhecidos. Eles fazem essa “caminhada” no escuro para ampliar as possibilidades instrumentais da banda.

Eu não sei até qual ponto a “intuição” é um fator para a composição do grupo, mas mesmo assim, a música do conjunto me parece fortemente apoiada na intuição, em sessões livres em que encontram elementos que os agradam e são melhores lapidados para entrar no disco. Tudo soa, mais que um relato íntimo, como uma exposição do ambiente que os cerca. “Manual [...]” é uma tentativa de evasão para lugares onde a intuição pode levar, é uma caminhada fermentada pela proximidade física dos signos que compõe o habitat do conjunto.

 O disco é próximo, parece algo que sempre ouvimos. Mesmo assim, é difícil de explicar e de entender. Quero dizer, é difícil dizer o que esperar de “Manual [...]”. Com uma sonoridade que resgata certa estética dos anos 1960, o Boogarins usa reverb e letras que buscam uma estimulação mais onírica. E não sabemos em que lugar nós vamos parar, pois essa veia psicodélica é tão gritante que nos causa uma imersão no “instante”. É como ir de encontro a uma massa sonora (que não é agressiva, até é reconfortante, como eu disse) e deixar que ela se entregue por você. É preciso ter a noção de que a “naturalidade” das progressões do Boogarins não apela para truques; elas são fonte da intuição do grupo.

Enquanto todo um fluxo imprevisível percorre o disco (mas não deixa de ser um fluxo extremamente não agressivo), começamos a nos importar com questões como “ok, mas SÓ essa massa sonora que vai preencher todo o trabalho?”. Mas não podemos esquecer que esse suposto manual do Boogarins é o próprio registro de um ambiente bastante surreal (a julgar pela capa) que é propagado não por seu retrato, mas pela percepção da sua irrealidade. Sem parar com essa catalogação do irreal, mas também perdurando uma grande dúvida de “não é só resgate que a banda realiza?” que podemos definir “Manual [...]”. Aí, pode-se cair em questões subjetivas, de “se eu gosto tudo bem, oras”. Até os efeitos que eles podem trazer, podem-se perguntar outras coisas, talvez mais importantes, “até que ponto de afogamento eles nos levam que esqueçamos coisas tão secundarias (conceitos) na música?”. Porque o que sentimos ao ouvir um álbum é o que mais importa no fim das contas e tentativas de causar sensações não faltam para o Boogarins.

Esses são os riscos de discos tão pautados em subjetividades extremas como a intuição, ao mesmo tempo em que é o fator que propulsiona o Boogarins um álbum tão esperado pelos fãs. Não é sobre lealdade, mas sobre o aguardo de algo que eles possam se relacionar. Não há nada em “Manual [...]” que não foi utilizado no último disco- o mesmo clima de “sonho”, de contemplação e de imersão em signos espaciais. A libertação da áurea que eles mesmos criaram não acontece e não é como se eles buscassem isso.

Que o Boogarins tem grande capacidade com reverbs e estruturas psicodélicas eu não tinha dúvida, infelizmente, em “Manual [...]” não foi possível saber se eles caíram nesse conforto ou apenas são realmente estacionários nesse estilo. Sons tão parecidos demoram para se desvencilhar do lançamento anterior e o disco ser enxergado como uma unidade dentro da discografia da banda. Não acredito também em comparações que muitos fizeram com o Tame Impala que, embora talvez realmente tenha influenciado o Boogarins, tomou um rumo extremamente covarde no tocante à continuidade em sua discografia. Penso em “Manual [...]” como um disco exatamente igual (no conceito) ao primeiro.

E aqui eu devo me contradizer novamente e afirmar que quando se tem uma banda tão intuitiva como o Boogarins essa nivelação de conceito pouco importa. Sente-se a inclinação da banda em fazer música corporal, sensorial. Fala-se, nas letras, muito sobre “sentir”, sobre ultrapassar os prédios e isso por que o Boogarins deixa passar e esquecem “o tempo todo”. Essa junção onírica de sintetizadores e distorção forma um bloco sonoro que nos propulsiona inevitavelmente a algo. E essa é a invenção da banda, essas intuições que são demonstradas tão bem sonoramente. A banda quer algo que não é definitivamente claro; ela quer misturar tudo sem ver, ela quer passar esse ambiente que os cerca da maneira mais fiel possível dada a percepção do conjunto. Por isso, tal incompletude em “Manual [...]” não me soa como um espaço vazio não preenchido. Soa-me como o registro de uma busca contínua.


Até as repetições podem ser distorcidas, podem ser revisitadas e mostram que o passado se repete (em outras músicas) que o Boogarins lança seu segundo disco. É difícil mesmo de deixar uma impressão que não seja confusa sobre o último disco da banda. Ao mesmo tempo em que temos um disco muito parecido com o primeiro, é impossível negar o talento dos rapazes com os reverbs. Pode-se esperar que eles acrescentassem mais elementos em sua sonoridade nos futuros trabalhos, e que a recorrência da “estética psicodélica” seja outro bom escape deles e não apenas o único e principal. Seja o que for, “Manual[...]” ainda expõe uma banda  que realiza sons instigantes em sua zona de conforto.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Elza - A mulher do fim do mundo [2015]

Elza mira mais alto do que mirou em toda sua vida, e não poderia ser de outra maneira. Suas lágrimas trazem alegria e sua opinião é de que só resta cantar. Ela só quer “cantar até o fim”. E é com tanto choro e garra que ela afirma que é a “mulher do fim do mundo que vai cantar até o fim” que não podemos deixar de sentir sua vibração. E ela quer lutar de volta, ela não vai ficar quieta para nenhum homem agressor; ela vai lutar com todas suas armas- água quente, cachorro, vai esculachar o macho para a mãe dele. Pode-se alçar A mulher do fim do mundo a um dos marcos em qualquer segmento artístico brasileiro; ele não só representa a cena da nova vanguarda paulista que se formava há anos no subterrâneo musical brasileiro (e que atingiu seu auge no ano passado com o disco da Juçara Marçal) como a movimentação social causada pelos dois movimentos que mais tem ganhado força; feminismo e movimento negro. Elza olha para seu corpo, sente a libido, ela quer mais. Ela quer fuder. Ela quer fuder tudo com uma idade em que muitos recuam, falam sobre amadurecer, mas não ela. Ela está em chamas, ela quer cravar unhas. Com o simples refrão “pra fuder”, Elza comemora seu corpo, comemora seu desejo. E ela não se entrega a um disco marginal de fachada, ela sabe e ela prova que todas suas ações, todas suas palavras são justificadas e necessárias. Qualquer marginalização com essa obra de Elza seria estupidez; porque seu discurso está por dentro, está validado- só não estamos acostumados com artistas que o utilizasse.

A poesia urbana que fala de crack e de homicídio em uma profusão sonora angustiante, em que cada andamento “assassina” o ritmo anterior. Esse ambiente sonoro é filho direto dessa movimentação subterrânea que eu mencionei anteriormente, a inquietação de Elza e do retrato de nosso país. Em nenhum ponto Elza perde o humor e a ironia mesmo em situações pesadas. Ela, ao contrário de algumas comparações com a obra de Clarice, não é uma observadora “nata”. Ela participa de tudo. Ela usa essas gírias. Ela viveu naqueles espaços. Ela diz “mano”. Suas músicas falam de ameaças machistas e também celebram um simples encontro com um amigo que ela não para de chamar “meu irmão, moleque, mil grau”. Elza, apesar de todas as frustrações explosivas que exala nesse disco, está feliz. Debaixo de toda construção instrumental, é revelada uma Elza não assustada com sua condição mortal e a aproximação da morte (o que é tema comum para artistas com tal idade), mas uma mulher enraizada em seu ambiente e em suas pautas sociais. Ela fala sobre suas companheiras que não estão bem, que passam dificuldades. Ela fala sobre história e sobre amigos da “laje” com a mesma propriedade.

 Elza não se vê como uma alma perdida, ela reconhece lugares importantes (um Rio muito além dos cartões postais), impregnados em noções de comunidade e que ao mesmo tempo carregam um perigo físico iminente. Os momentos poéticos são os momentos crus, não há desligamento possível. Porque essa associação global/individual em que múltiplos elementos explodem em uma voz tão marcante como a de Elza que podemos ainda acreditar na modernidade. Ao mesmo tempo em que uma era produz tanta informação e pode causar a subjetivação extrema de questões socioculturais, ela permite que uma artista como Elza explore com propriedade seu ponto de vista, flutuando entre temas complexos. A persona de Elza simplesmente não existe. Ao mesmo tempo em que é importante figuras como Kendrick falar sobre problemas sociais não apenas de seu ponto de vista (Lamar assume várias personas em seus discos), a autenticidade de Elza, indo de poesia clássica à gírias de sua vila, grita tão alto que não sobram meias-impressões. A mulher do fim do mundo exibe uma fibra sonora que vai com certeza destruir padrões para os próximos lançamentos. Exibe uma artista que depois de tantos anos de carreira compôs o disco mais transgressivo de sua discografia em uma época que, parece, a maioria das coisas consideradas transgressivas são falsificadas com discursos pseudorrebeldes. Rebeldia que Elza nem clama pra si, apesar de estraçalhar limites em que as cadências comuns do samba simplesmente são aniquiladas por um violino que faz pano de fundo para Elza “cantar até o fim, eu sou a mulher do mundo”. A intensidade de alguém que vai jogar água quente jamais poderia ser tachada como simples rebeldia, mas uma reação necessária, a reação de Elza em todo o disco é a única reação que uma pessoa com sua envergadura pode ter.

Aliás, em um disco que toda estrutura sonora soa intencionalmente distorcida, o único ponto que não tem nenhuma distorção é a autenticidade com que Elza diz que o homem idiota “vai se arrepender”. Não é uma ameaça, é um aviso, um aviso visceral. O som da banda de Elza é cativante, oferece uma audição que apesar de decididamente “esquisita”, mostra-se acessível porque “desconstrói” bases instrumentais muito comuns na música brasileira. Nada soa “abusivo” em A mulher do fim do mundo. Elza sabe que todos tropeçam, que o mundo vai terminar cheio de merda. E a partir do reconhecimento dessa imundice que perdura na contemporaneidade, ela só pode se entregar ao máximo. Não que o mundo mereça isso, mas porque nós, que suportamos isso, merecemos. Nós suportamos o caos, os tiroteios, a solidão como um cachorro sozinho na praça e não vamos sambar? Como assim não vamos festejar viver nesse inferno?

Os músicos talentosos, as progressões “samba-rock-marcha-math” abrem esse vasto terreno em que Elza nos apresenta um Brasil decadente (e que seus cidadãos tentam encontrar sobrevida no sexo, nas drogas, no humor). Não é como se Elza não sentisse medo, mas ela reconhece a invalidez criativa desse sentimento. Ela surge com a testemunha de um mundo violento e quer representar esse absurdo em um conceito estético extremamente autêntico. Há certos momentos noir que me remete muito ao álbum colaborativo Thiago França, em que a orquestrações lentas dos acordes são misturadas com os estranhos riffs de guitarra, mostrando os compositores e produtores das canções como os mais excitantes dessa geração.

Talvez a felicidade de Elza se baseie em encontrar companheiros tão talentosos para aguentar esses cenários urbanos devastados que ela descreve. Debaixo desse caos sonoro está a voz rouca de Elza, que se levanta para que todos saibam que ela não está morta, que sua volta deve ser encarada sob o ângulo da inovação em nossa música popular estagnada, que se o The Voice existe não devemos dar importância; a Elza resiste, suas reivindicações são legitimas e somos testemunhas de um período de virada na música brasileira. Não importa se de fato Elza não escreveu essas canções, porque ela nitidamente vive cada uma delas, ela se entrega porque sua vida com certeza está resumida nelas; as decadências, as contemplações solitárias, o cheiro ruim da cidade. É um disco que pode ser aplicado em qualquer metrópole brasileira, porque aqui o clima noir não se baseia no mistério, mas na certeza que a cada momento nossa alma é corroída pelos sem teto cheios de crack, pelas prostitutas que abusamos, pelas mulheres que nós matamos. Está tudo tão torto, a sombra engoliu tudo; nossas possibilidades de redenção, nossos melhores momentos, nossas antigas amizades, nossos antigos amores.

O corpo de Elza também sente isso. Ela com certeza soa nostálgica muitas vezes, como se a própria sombra fosse um reflexo de sua vida recente. O primeiro minuto da última faixa é carregado de drone; como se esse minuto sintetizasse a angústia que todo o disco transbordou. Ali, no final, Elza encontra sua redenção “levar a mãe dela com ela de um modo que não sabe dizer”. Pode-se sentir tudo isso em A mulher do fim do mundo; o mangue, as escolas de samba. Esse disco não só representa; ela é verdadeiramente as caminhadas entre a Sé, a Praça da República, a subida pra Augusta pela Praça Roosevelt. Em que é impossível não sentir o cheiro de urina, perceber as prostitutas em esquinas escondidas e uma pergunta sincera que brota; “o que fazer com tudo isso? O que sentir? Por que tudo isso? Por quê?”.


Elza quer cantar. O mundo ainda não tem fim porque ela pode cantar, o resto não importa muito. E quando ela diz “me deixem cantar até o fim”, ela não pede permissão. Ela simplesmente avisa o que vai fazer. E em A mulher do fim do mundo ela faz demais, ela homenageia nossa modernidade decadente. A sonoridade do álbum é difícil de catalogar, e quem não está por dentro das novas vertentes brasileiras pode sair um pouco perdido. Elza chega para entregar o tipo de samba que ainda pode ter alguma relevância, ela surge para mostrar a tremenda importância que um disco desafiador pode ter. Ela atira pra cima de nós, sem nenhum arrependimento, a constatação de música provocante e intricada, como uma água quente impossível de desviar.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Jacob Garchik – Ye Olde (2015)

Ye Olde resgata sonoridades que já foram resgatadas; é um disco de colagens múltiplas que surgem como uma invocação; é um ciclo que a banda de Garchik não cessa de repetir e repetir, são voltas e voltas em uma sequência errática, trêmula, esquisita (na primeira audição).  A imprevisível distorção de guitarra que fecha a primeira música abrindo para a “esquisitice” Tom Waits que a segunda faixa inaugura. São apropriações que transgridem seus próprios limites e que eclodem em pontos impensáveis. O resumo que Garchik realiza de seus gêneros musicais favoritos totaliza as irrealidades (místicas!) que ele corporifica em Ye Olde; ele vê uma espécie de unidade atrás de cada elemento dispare de sua composição e não hesita em combinar essa ligação invisível que os instrumentos compartilham. Por se tratar de um disco que dialoga fortemente com movimentos passados, pode-se dizer que a saudade une tudo.

Mas o que poderia Garchick fazer para não ficar em uma idealização do que aconteceu ou reduzir as ótimas possibilidades desse disco para saudosistas em um discurso elitista? Ele chamou três dos guitarristas mais aclamados pela nova safra do jazz livre (Mary Halvorson, Brandon Seabrook, e Jonathan Goldberger). O ultramodernismo que essa obra pode aparentar com suas dissonâncias e seus temas barrocos invocados pelo saxofone se debatem com a memória afetiva de Garchik em que referências explícitas ao rock progressivo dos anos 70 são feitas. A variação de Garchik com seu trombone mostra o compositor em uma expressão estética totalmente livre; não fosse o limite de sua nostalgia. Limites pontuados pela bateria de Sperrazza.

Cada faixa em Ye Olde constrói um pequeno  pedaço da história que Garchik nos propõe.  São músicas com a duração pequena se comparado com o que se faz hoje em dia no jazz livre, e elas encontram seu ponto de clímax rapidamente ao mesmo tempo em que essa explosão é realmente curta. As guitarras sincopadas muitas vezes iniciam o trabalho como se realmente tivéssemos na década de 70, até que partes de improvisação dos três guitarristas retomam o sentido mais abstrato que toda a obra de Garchik tem abraçado. A realeza é palpável com a incrível marcha clássica (que só não é propriamente erudita pelas divagações elétricas) na última faixa. É um verdadeiro  coroamento de tudo o que o disco propôs.


Para quem acompanha um pouco mais o jazz livre contemporâneo, os três parágrafos anteriores são realmente desnecessários; o time que Garchik monta aqui praticamente entra como o Barcelona tem entrado em campo. Esse disco continua construindo a carreira de Garchik como um excelente compositor e dos mais promissores na música contemporânea. Ele não só fez esse time jogar bem, mas o usou para jogar muito bonito.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Banana Scrait - Giostra [2015]


Os sussurros de Andrea encontram uma guitarra vibrante de plano de fundo. A combinação instrumental do Banana oferece essa áurea psicodélica que projeta estados intermediários, entre sonho e realidade. O pop do Banana consegue invocar tantas coisas e passar por tantos terrenos musicalmente que se pode ver que são músicos extremamente preocupados com os arranjos e resgatar certo tipo de música ao mesmo tempo em que exibem procedimentos de gravação extremamente modernos. Tudo soa vasto e ambicioso nesse disco, enquanto o contraponto intimista torna cada audição importante. Importante porque a música do Banana é célebre; ela tem uma variação impressionante ao mesmo tempo em que mantém certa ordem (criativa). A faixa título poderia facilmente estar na trilha sonora de Twin Peaks, e ela introduz o tema da viagem que Nepomuceno (o disco tem quatro revisitações do compositor) compôs com Galeno.

Se Voo me fez diagnosticar a validade no que já passou, a imersão que Giostra provoca leva o ouvinte às introspecções que transbordam questionamentos. As canções poetizam momentos de aguardo, de pensamentos sobre o “que vai acontecer” e o que já “aconteceu”. As histórias presentes em Giostra flagram um mundo de desejos simples, porém extremamente importantes para a psique da narradora que reflete constantemente sobre os espaços, tanto psicológicos quanto físicos, que ela percorreu. Eu não sei o que de fato levou os integrantes do Banana a homenagear a obra de Nepomuceno e suas parcerias, mas a banda conseguiu sonorizar as constantes indagações que o compositor realizou ao lado de escritores como Galeno. Como todo disco que respeita o ouvinte, Giostra é aberto o suficiente para que as impressões do ouvinte possam ser injetadas em sua vasta paisagem sonora.

Acolhimento. Maneira de receber ou ser acolhido; recepção, consideração. É possível encontrar tudo isso nesse disco, mas não da maneira mais “usual”. As canções revelam choro, decepções, reflexões melancólicas e são capazes de espelhar sensações semelhantes que o ouvinte possa ter. Os andamentos lentos, os sonhos que nos tomam de assalto em uma caminhada matutina; há mil possibilidades que enchem a cabeça e mostram que a calma não necessariamente é preenchida com paz. A sonoridade da gravação é extremamente límpida e essa produção lapidada se contrapõe à inquietação interna que a narradora enfrenta durante as seis canções que compõem o disco, marcando principalmente o belo andamento dos instrumentos de sopro que pintam a paisagem sonora. Os vocais de Andrea mostram-se límpidos nos momentos cruciais; é como se ela emergisse desse ambiente para finalizar a poética das músicas.

A sensação pop que percorre o álbum evitam o imediatismo; é preciso ter paciência para ouvir Giostra porque suas construções são lentas, calmas. Apesar da ambientação em que distorção e sintetizadores constroem uma ambiente onírico, a profundidade estética do Banana se baseia no todo (tanto como na arte do disco, que evidencia um ambiente rico em cores mas minimalista, solitário). O discurso do Banana, que resgata obras tão importantes pára a arte brasileira, é de que esse resgate não é usual; há uma semelhança poderosa entre os temas das canções e as releituras instrumentais/vocais que a banda realizou; um cenário íntimo onde as folhas que deitam na terra enchem “todo o ser” da narradora. Não há caminhos fáceis para o andamento instrumental de Giostra e as bifurcações sonoras erguidas aqui revelam um ambiente rico ainda assim, em esfera pessoal, sempre há a sensação triste de que “falta algo”.


Todas essas variações se unem para elaborar o principal atributo de Giostra, o intimismo que precede todas as técnicas. O ambiente é frequentemente tomado por grandes divagações instrumentais (os instrumentos de sopro, os sintetizadores, as guitarradas), estas que em nenhum momento suprem o intimismo que é o ponto maior do disco (a arte do álbum revela uma espécie de “intimismo-desolado”)- pelo contrário, elas o tornam muito mais respeitável. Com repetidas audições, parece que a narradora vai derrubando sua “máscara” de artista e se tornando abissalmente humana. Isso que passamos pelos mesmos estados, isso porque a poesia de Giostra é um firmamento do isolamento, da reflexão e das saudades que a vida invariavelmente nos causa. Giostra abraça a calma para revelar as inquietações em terrenos sonoros vastos, que não conseguem excluir (ao invés disso otimizam) a sensação de distância e, ao mesmo tempo, deixam-na tão querida.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Tsai-Ming-Liang - Jornada ao Oeste (Xi You) - (Taiwan/França, 2014)



Poucas cinematografias oferecem uma posição tão radical e leal quanto à de Tsai Ming-liang, cujas obras cronicamente estabelecem um acordo muito elevado com a audiência. A temporalidade é um aspecto fundamental nesse lugar que o diretor busca nos imergir. Assim que o filme inicia, o close em Denis Levant se aproxima muito a uma dinâmica documental em que se filma a biologia de determinada região. Assume-se, assim, que estamos sendo conduzidos a outro espaço com outras medidas temporais. Desde o começo do plano, a face de Levant se apresenta com uma história já contada- portanto, não haverá narrativas propriamente ditas em Jornada Ao Oeste, Tsai se cansou delas (aspecto que já se destacava em Cães Errantes). Alguém poderia questionar se “contemplar também não é narrar”, mas aqui vemos a exclusão de Denis quase em uma acepção que foge a história cronológica, afinal o Cinema só não existe para escapar do monstro histórico? O contemporâneo já esta inflado dessa medida corrosiva, o tempo. A incursão no rosto de Denis Levant condiciona a própria existência do filme para algo exclusivo, que só vai de fato ocorrer naquele ambiente. O que emerge do quadro que abre Jornada Ao Oeste é a utilização da ferramenta mais utilizada no cinema (o close) para demolir uma medida que essa mesma arte viu como sua muleta (principalmente em filmes mais “literários”).

A manipulação de Ming-liang é bem clara desde os primeiros instantes- como as sombras revelam o objeto (o rosto sufocado de Levant) e como a rotação transparece que o ator estava, na verdade, em um local aberto (a própria sombra que escurecia o rosto dava a impressão de um lugar fechado). O que predomina dessa operação é o elemento “momento”- sensação que só aumenta nas longas tomadas do filme. Somos atravessados por essa profundidade- de que, de fato, um momento está sendo fabricado. Não é o contexto que está sendo estabelecido! É o próprio tempo! É uma relação complexa entre objetos (atores, filme) e quem objetifica (audiência).

Não o suficiente, é o único instante em que Denis está em um mundo “não social” no filme, sua criação (a solidão) é impossível de ser repetida. Depois dessa sequência (que acaba numa curiosa corelação entre rosto e contorno das montanhas), Tsai abandona o impacto desse close para investigar o social. O que ele filma aqui está longe de ser um objeto narrado, mas o desenvolvimento das fronteiras contemporâneas, limitando-nos em espaços urbanos.

Barthes falava na função fetichista do cinema, sobre o vício no que “excede” a tela- o som, a escuridão, a massa obscura. Goodbye, Dragon Inn (2003) já mostrava um Tsai Ming-liang preocupado em problematizar a relação entre público e filme. Se Jornada Ao Oeste pode ser visto como a continuação do monge que estrelava Walker (2012), ambos carregam o fardo de ter que verdadeiramente “atravessar” os planos urbanos que parecem intransponíveis. O contraste notável em Walker, a imposição do ritmo de uma grande cidade, passa a ser negado quando a transição Oriente-Ocidente passa a ser acreditada como possível pelo próprio Denis Levant, que abrigava uma solidão angustiante na primeira tomada. Os passos de Lee Kang-sheng como monge só podem ser acreditados se contemplados com fé.


O universo de ambos protagonistas, no entanto, guarda similaridades muito grandes- a respiração de Levant emite um som muito parecido com o “ronco” da caverna onde a jornada de Lee se inicia. Então, a primeira cena de Levant e a primeira cena de Lee podem ser encaradas como uma espécie de preparação- o monge vai de fato “adentrar” no mundo onde sua presença causa impacto - este que se destaca mais no plano da escada- e Levant para ser “impactado”. Enquanto essa comunhão não ocorre, Tsai filma o rosto de Levant como um bioma. A câmera que acompanha o monge realiza a transição entre teoria e prática, enquanto Lee abandona lentamente a caverna escura. Mas aqui a ideia platônica não é sequer concebível- o ser abandona a caverna a partir do seu ato de fé, pois a projeção não vem mais das sombras, mas da realidade concreta cuja qual somos submetidos. A distância da câmera (em contraponto ao close máximo do primeiro plano) sustenta essa dialética para depois levantar outras questões.

“Mas se a dialética já é abandonada nessa segunda cena, o que resta?”. Voltamos ao cotidiano que é a matéria principal em toda filmografia de Tsai Ming-lian em que o monge (na linda caminhada inicial, o vermelho barroso do fundo contrapondo com o vermelho liso de Lee) vai adentrar o que muitos chamam de “mundo de verdade”. Os locais por onde o monge caminha é estetizado numa geometria obcecada de Ming-lian. Planos em que a posição da câmera se mostra fundamental para “construir” espaços e situações. A aleatoriedade é algo que Tsai não quer falsear, mas ele quer deixar-nos ciente de que, em um filme, pode “tapear” absolutamente tudo. É possível que os “pedestres” que “interferem” em nossa visão clara do ambiente urbano sejam mais que isso- são forças ativas que objetivamente excluem atos como o de Lee para um plano impossível.

O primeiro plano se caracteriza como essencial, pois sua solidão é o que permite uma contemplação mais comprometida com os atos do monge. Um sentido que não é possível catalogar que atinge peculiaridades como a menina da escada, Levant e que deveria guiar também os espectadores- que tempo e espaço não só coexistem como são a mesma estrutura e sua existência deve ser experimentada com o mesmo comprometimento. O tempo “já existiu” e no budismo ele não é algo além do que existe. Nada passa, a linearidade é também uma manipulação. É isso que Levant descobre- que as ações de causa e consequência não habitam nossa medida temporal. Filmar os passos do monge é também filmar a transformação no espaço. Levant vê que o monge só existe porque existe a cidade, Levant percebe essa interdependência tão cara para a filosofia zen-budista. Cada passo do monge é uma inauguração, é um gesto novo. O movimento do monge é sua forma de se integrar e viver o espaço- ser o espaço, de uma forma mais radical. Filmar a cidade é mostrar que ela ainda está aberta a integração. Essa atividade comum humana adquire uma força transcendental. Ora, a cidade pode ser modificada, observem as expressões da menina que não quer abandonar os passos de Lee! O milagre da liberdade começa quando Lee abandona a tela. Levant tem que continuar. O telespectador também.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Cadu Tenório e Eduardo Manso - Casebre(2015; Selo QTV)

Depois de diversos trabalhos pesados, cada um com seu projeto, Cadu e Eduardo se unem em uma sessão de livre improviso para ampliar os “limites” do noise e extrapolar sensações tão desconfortantes.  E não vejo isso como “estudo” ou “investigação”, mas sim uma adesão intensa dos sentimentos dos artistas em uma estética tão radical nessas cinco faixas. Se estes já são conhecidos por não respeitarem nenhuma suposta “zona de conforto”, o trabalho de Casebre com certeza é uma soma indispensável ao estoque sonoro violento que eles têm produzido. Por isso, vejo esse lançamento como uma “coisa”. Algo que não podemos prever a direção e muitas vezes instransponível pela parede de ruídos. Mas que quando revelada, explora verazmente as manifestação que pode causar. Imagine-se em um quarto sozinho e que cada som externo te preencha totalmente. Preencha-te de forma que te deixe inquieto, nitidamente sem conforto. Tudo é um absurdo; cada ruído, cada batida. Inclusive, Casebre pode ser visto como um espaço vazio e desabitado de “intenções”, onde uma pessoa cega tenta se guiar por sonoridades tão drásticas e catárticas, compostas pela visão distorcida de quem as produz. E apesar dessa distorção (as vozes ininteligíveis, por exemplo), há um esforço em comum da dupla em se locomover para “espaços novos”.

Talvez o charme principal de Casebre seja essa mistura entre realidade (a respiração prolongada da faixa-título) e imagéticas que os sons propõem. Mais do que “construir um clima de terror”, a dupla consegue verdadeiramente causar certa aversão nos ouvintes. A questão do horror não se trata apenas da violência sonora, mas sim como não há nenhuma possibilidade de “progresso” nesse lançamento, são sentimentos conflituosos que esses sons transmitem! É estranho porque depois da audição de Casebre, eu senti muitas coisas esquecidas. É uma espécie de sensação que só esse disco dá acesso completo. Lógico, cada obra é “única” por si, mas uma falta clara de adjetivos para esse registro revela todo conflito ao qual me referi. Só ouvindo coisas como o final hipertenso da faixa-título que temos acesso para o estado de Casebre, principalmente com fones de ouvido; há uma saturação de microelementos e é justamente nesse ponto que sentimos uma profunda inconstância.


A dupla abusa desses ruídos não como fins em si, mas para apontar locais em que só podemos chegar devido a essa visão distorcida. Não deixa de ser um lugar de confusão e não deixa de ser um lugar fantasiado que abusa de elementos “reais” em movimentos mais complexos que simples transições. São cortes que martelam e se arrastam, como um colapso nervoso, um grito sufocado no meio da garganta, a respiração impaciente. Certamente, o processo de digestão de Casebre vai ser conturbado, e é justamente esse seu ponto; estimular inquietações. Essas exortações acontecem tanto nos instantes mais quietos quanto nos mais ruidosos; não há sossego possível nesse disco. Mesmo nos dezoito minutos da faixa-título não há um instante de relaxamento. Eduardo e Cadu não estão em paz e aqui todos os ambientes de suspense e apreensão são explorados com uma múltipla variação sonora. É como se o elemento do caos, tão habitual nos outros trabalhos de ambos, estivesse presente tanto na respiração ofegante quanto nos desdobramentos externos a esta. Nenhum componente é apaziguador. Mas não temos uma redução a uma única sensação; é nesse trânsito de inquietações que toda a variação (nenhuma faixa segue a “mesma linha”) de Casebre se estabelece.

Todas essas ruminações e tensões construídas tornam Casebre um álbum de difícil significação. Mas os dois artistas oferecem um ambiente altamente experimental e não somente conceitualmente, é um álbum para ser explorado porque existe uma construção em cada uma de suas variações. E se você ainda não conhece as intensas produções de Cadu e Eduardo, considere Casebre como uma porta de entrada. De algum modo, se você sobreviver a uma retaliação como os primeiros minutos de Rádio, descobrirá coisas fascinantes que renderão dias e dias de barulho. Muitas vezes sentimos a necessidade de estender nossos limites, mas para eles isso é uma urgência. Se não é um álbum para todos, ao menos aqueles dispostos a sentir a própria vulnerabilidade têm que tentar.

Cadu Tenório e Eduardo Manso - Descalço from VICTIM! on Vimeo.

Timbre - Sun & Moon [2015]

Não é possível estabelecer quantas formas podemos vivenciar um disco. É impraticável forjar uma união de conceitos para entabular qualquer ponto em comum. A não ser pela semente onde tudo começa. Encontra-se em um álbum um ponto pelo menos que será compartilhado, a partir daí surgirão ramificações, aprendizados diferentes. Há quem tenta chegar à raiz e busca “compreender as ideias do artista”, há quem simplesmente não leve tão a sério e escuta enquanto se masturba. Esforçam-se todos, no entanto, se agarrar em escapes mais palpáveis. Há um ponto em comum nisso tudo e acho que obras tão essencialmente harmoniosas quanto Sun & Moon podem estabelecer bifurcações diante de todos os desencontros possíveis.

Nas vivências que Sun & Moon proporciona, existe um grande clima de “sentir-se” acolhido. Os acolhimentos possíveis que brotam do álbum nascem do silêncio que este sugere, de instantes mais solitários, porém imagéticos, fazendo com que as projeções internas adquiram vida e situações possíveis. A contemplação também modifica nossos sentidos, e é nas instabilidades que o ato de contemplar pode gerar que se crava o dever da cantora Timbre. Com essas canções ela tenta desenhar na pele manifestações potencialmente submersas. Sun & Moon é justamente essa transferência do intangível para uma forma musical. As estruturas tradicionais (e aqui se encontra uma tradição mais antiga, folclórica) dão vazão aos nossos sentidos que precisam ser mais apurados e exercitados.

As mudanças de estilo refletem a mentalidade mais obscura de Timbre. Ela constrói esses ambientes que, obviamente, são bonitos, mas há doses consideráveis de negatividade em suas indagações. Essas diferenças revelam estados alternados. Não falo de uma ambiguidade que o título possa sugerir, mas algo mais complexo que “modifica” o espírito da cantora e instrumentista ao decorrer do disco. Há uma solidão onipresente e o que se pode encontrar em todas as músicas são reflexos divergentes do mesmo isolamento. O que ressoa e o que “poderia ressoar” são exaltados. Pode-se pensar que esse transe que Timbre expressa é de uma sensação incerta, porque esse distanciamento aumenta a maravilha dos fenômenos das coisas e também se torna fonte para dúvidas mais angustiantes.

Claro que essas angústias são “peneiradas” por toda a docilidade que a abordagem de Timbre sugere. O que acontece -como dito acima- é que toda a apreensão e insegurança que a segunda metade do disco revela é apenas um espelho da mesma “beleza” que a primeira metade estetizou. Porém, na etapa do disco que mimetiza a noite, a solidão perde seus movimentos livres para tornar a diversidade visual mais íntima. É como se Timbre revelasse sua grandeza e sua timidez perante a mesma paisagem. O que muda não é a cantora, mas sim a disposição da luz. Isso registrado, que fique claro que não há uma ambiguidade forçada no disco. Ela guarda a iluminação potente do dia em algum recanto de seu corpo. Timbre deixa claro que não vai se esquecer da paisagem matutina mesmo nas noites mais escuras.


Todo o percurso de uma hora e vinte desse disco é na verdade uma rotação em torno do mesmo lugar. É um álbum de insistência e paciência. Mas Timbre recorre a um método que pulveriza qualquer chance de monotonia- ela entrega há esses mesmos ciclos diários uma contemplação composta por devoção e incertezas. Esse aglutinado de sensações carrega imagens tão necessárias para evitar qualquer repressão, em um mundo onde oposições tão radicais têm de coexistir. E se a existência já carrega contradições angustiantes e pesadas, como também não se maravilhar pela simples possibilidade de tais disparidades estarem dispostas?