quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

a distância entre nós- parte II (para harold budd)

PARTE I


Estávamos num ambiente sem luz e eu mal conseguia ver sua face e você falava sobre o significado real dos sonhos encarando uma extensão contínua brutalmente escura. Eu tava com medo daquela escuridão te engolir, mas parece que você já sabia de tudo.

Você se esquecia dos artifícios e estava numa terra muito além de mim. Embora, fisicamente próximos, era como se quando você cerrava os olhos e encarava o continuum toda a álgebra da escuridão potencializasse nosso já marcado desencontro. Isso há muito. Eu ainda acreditava em Deus e você sorria quando eu falava da salvação eterna. Você estava sempre sorrindo.

Eu procurando desculpas para beber e ficar de porre. Frequentemente esquecendo de suas palavras gentis e da sinfonia quente, incisivamente derretedora, duma cidade que impunha sua condição através de ondas calorentas. "é por isso que eu nunca vou visitar Lavras" você disse, com o sorriso calculado da desculpa bem-dada.

E eu percebi que a conversa ia morrendo e você ia adentrando na minha paisagem visual se dissolvendo com seu sorriso familiar. Sua face estava assimétrica e eu achei tudo muito estranho. Eu me escondi no quarto abafado pra caralho para usar drogas recreativamente, você sabe. Daí quando voltei você não estava mais lá e a cidade parecia maior em extensão do que eu suponho ser- estabelecendo luzes mercuriais diagonando com a antipatia de todos bravos pra caralho com outro dia de bosta. Olhando com asco para as quinas das calçadas e chutando a canela do vento numa exacerbação da fúria interior.

Você diria "a gente não mudou nada. A gente não conhece nada". Sempre mantendo aquele sorriso, de quem, de alguma maneira, consegue dormir sem se coçar nestas noites peçonhentas. Eu mesmo ouvi várias vezes - numa fusão de sono e vertigem- moscas entoando Sunday Morning num zunindo estrondoso enquanto você arrumava suas malas dizendo que nunca mais iria voltar.

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