segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Absolutamente todos vão embora- pensamentos ouvindo Skeleton Tree, de Nick Cave and the Bad Seeds


Você cai e definitivamente pensa "desta vez é para sempre" sem pensar necessariamente que você nunca propriamente levantou então se estabelece uma simulação de "estar-de-pé" enquanto ao redor todas as coias rodam distantes do teu alcance. Perto do rio sujo e poluído em que você cresceu e que esperava o Gustavo te buscar quando você trabalhava em algo que te fazia bem. E vem à sua mente um monte de imagens objetivamente divertidas e você pinta tua memória com uma nostalgia recente e você lembra da discussão com um amigo online sobre o que é memória. As flores do quintal da tua casa foram arrancadas ontem enquanto você assistia futebol e é meio estranho você gostar mais de futebol hoje em dia do que quando você era criança. Quantas vezes você não andou por Santo André e viu um degradê bonito de fim-de-dia e quis registrar aquilo na câmera do teu celular mas a foto saia bizonhamente estremecida, decrépita- como se desafiasse a estética de todas fotos bonitas. Você chorou uma vez observando o rio poluído levando em sua correnteza toneladas de sujeira rumo a um destino bem distante simbolizado no início do Morro Homero Tom

A marcha (também bizonha) de um monte de aranhas divertidas zoiudas embaixo da mesma árvore onde você chorou sobre um gramado irregular e mal cuidado E lá de baixo parecia que dava para ver por cima da cidade- e eu meio que pensei "nossa e se eu escrever um livro sobre nada" e aí pensei que porra, Balzac já tinha feito isso e aí pensei que porra, não era Balzac não... e aí eu fiquei rindo da minha tolice em rir dessas coisas e as lágrimas secaram até que rápido pois a marcha-fúnebre das micro-aranhas ainda não havia terminado (elas eram tão pequeninhas e caminhavam enfileiradas tão bonitinhas)

Alguns vão e alguns ficam e Santo André permanece a ponto de eu ter me mudado e sempre voltar e sempre lembrar daquelas malditas aranhas engraçadas e do maldito céu em degradê que curiosamente me lembrava uma música da banda carioca Forfun e é espantoso estas associações. Alguns nunca se mudaram e sempre que volto para lá encontro os mesmos vizinhos as mesmas barrigas aposentadas as mesmas cristãs preocupadas em fazer seu bem e eu continuo evitando uma senhora-nada-simpática que fica conversando horas sobre nada e, porra, Flaubert já tinha feito isso (demorou mas lembrei). "nunca deixe estas coisas saírem de você" mas elas saem cada vez mais e eu meio que parei de tentar evitar essas coisas meio que inevitáveis e tento - muito embora pobremente- aceitar este fenômeno como um contínuo-estado-caótico-do-acontecer. O telefone parado ainda está em nossa velha casa ainda se recusando a tocar em meu nome a diferença desta vez é que ele tem se recusado a tocar em nome de todos pois absolutamente todos foram embora (apaga a luz lá fora sempre é hora...)

Gustave Flaubert- fazendo cara de nada (eu sempre quis ter este bigode será se consigo)

Na maioria das vezes eu não sabia por qual rua X eu chegava no lugar Y então eu simplesmente andava ou me afastando ou me aproximando do centro Z então sabe-se lá era meio que tudo na sorte. Uma vez que eu lembrava o caminho era raro eu esquecer e eu lembro que tantas vezes ia à casa de uma amiga pegando o desvio (domingo era dia de feira) e era um caminho relativamente tortuoso mas, raios, eu lembrava deste caminho e não lembrava objetivamente como chegar precisamente no mercado perto-pra-caralho da minha antiga casa em Santo André. Coisas da Memória. Ela tem dessas. Como um rato de laboratório eu fico percorrendo a Cidade porque se parar de percorrer esta extensão fútil vai consumir todas memórias que eu jurei proteger sob o céu-degradê. Minha monstruosa pequena memória devora-me inteiro e eu me sinto num poema ruim de Baudelaire vomitando estilhaços passados para engolir rachaduras deles (que já eram rachaduras de algo) e arranhar um estômago que tem lidado mal com o prolongamento inevitável das ausências

Meu avô costuma dizer do "vento-bom" sentindo a brisa protegê-lo momentaneamente do calor devastador do interior paulista e eu nunca pergunto mas sempre tenho vontade de perguntar que raios seria um vento bom. Este doce mundo é antigo e quanto mais eu penso na possibilidade de sua velhice eu atribuo mais doçura aos seus montes incompletos e aos seus rios poluídos (como se a degradação destes emprestasse uma qualidade humana à perfeita paisagem do horizonte). Os cachorros caminham à noite em Lavras meio que suportando o peso da escuridão noturna porque dá para reparar (também docemente) como quando eles olham para trás para garantir que a noite não está a os perseguir. As flores neste asfalto formado por paralelepípedos (esses de cidade pequena) deixam a parada toda escorregadia e se você não andar com cuidado você patina (acho que os cachorros tem mais medos desta patinação, pensando bem. Quem não tem medo de levar um tombo?)

Baudelaire meia noite e as flores-do-mal, um bom vinho. Aham, um bom vinho...

Quando você está se sentindo apaixonado você desenha no tempo-e-no-espaço umas determinações tuas e projeções tuas também a ponto de que se tudo encaixar em tua projeção você é a pessoa mais feliz do mundo enquanto planeja tudo isso. Nada mais importa- os livros que você nunca vai ter tempo de ler,o emprego dos sonhos que você nunca vai ter, os discos que você nunca vai ouvir e os filmes que nunca vai ler. Nada importa. Eu te vi ali do outro lado da rua naquele sábado à noite com a cidade de São Paulo gritando (como sempre) em buzinas, freadas bruscas e sabe-se lá mais o que. Mas aquele grito urbano era o plano de fundo para o nosso primeiro encontro. Eu lembro que você estava com uma blusa mas vou falhar em lembrar qual (embora chuto que seja a blusa jeans) e que olhou bem antes de atravessar a rua e só depois eu fui reparar realmente como você OLHA de verdade para atravessar a rua. Nada mais importava, nada mais importava porque você estava lá e pensamentos como "um dia você não vai estar mais aqui" nem passam pela minha cabeça, sabe? Acho que é isso que o Juliano Garcia Pessanha define como atingir o "aroma da duração" porque embora eu não saiba precisamente dizer o que é isso é este o ponto que nós estamos, certo? (por favor, me corrija se eu estiver errado. Eu sou todo atrapalhado)

Então deixa eu ir embora, Santo André. Eu prometo me despedir do rio-fedido, dos edifícios altos, da praça-que-não-tem-nada perto de casa, das minhas vizinhas que não dizem nada, do boteco em que eu vejo sempre as mesmas pessoas (com raríssimas exceções). Quando eu for embora eu vou fechar o gás, fechar a torneira da água e tirar todas as tomadas (vai que cai um relâmpago, não é mesmo?). Então as noites assistindo desenhos da televisão-a-cabo ou jogando videogame com meu primo vão todas adentrar apenas no campo da memória e talvez sobrevivam ou não à engrenagem que faz funcionar este motor exotérico que estimula lembranças. Os céus continuam distantes aqui em Lavras (embora os morros sejam muito altos) e a cidade exige demais tipo das suas coxas pois os caminhos da cidade são formados basicamente de sobes-e-desces e eu acho que não tem nenhuma rua minimamente reta por aqui. Para ver o sol nascer eu tenho que ir para outro lugar pois a elevação das distantes casinhas na colina (também elevada, obviamente) interrompem sua luz e quando eu realmente vejo o sol daqui de casa ele já tá lá bonitão sozinho e reinante num céu desanuviado jogando a sensação térmica lá pra cima

Seu sacana...

Domingo de manhã. Gramado cortado. O sol está a nordeste. Num raio de 45 graus. Mas não dá pra ver ele. Ele está escondido atrás de uma casa de telhado triangular. Na frente desta, tem um porção de pedrinhas-que-pedreiros-usam-na construção. Aí, por causa delas, eu me lembrei das pequenas aranhas sob a árvore de Santo André. Mas as pedrinhas não marcham. Não. elas permanecem imóveis. Indiferentes à movimentação do sol. Indiferentes a mim. Ah, quem dera eu pudesse selecionar o que lembrar; aquele fim-de-ano em Angra dos Reis, meu primeiro encontro com a J, o Corinthians ganhando a libertadores (ao lado do meu pai, no estádio) e não lembrar nem fodendo de olhos chorosos, de palavras fortes e hostis. E tudo isso que a gente faz e inventa pra machucar os outros e a nós mesmos. Sei lá, será que não daria para acender à altura solar e ser mais do que isso que nós temos sido?

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