domingo, 15 de janeiro de 2017

A derrocada democrata em The Wire- ou o combate ao caos


“Suffering has been stronger than all other teaching, and has taught me to understand what your heart used to be. I have been bent and broken, but - I hope - into a better shape.”
 ― Charles Dickens, Great Expectations

Uma política reacionária se insinua em todos os locais da dita criação artística. Os paradoxos políticos não só apresentam a representação em complexos culturais quanto a própria ideia de um "telespectador comum" contamina ambições criativas dos criadores das séries de televisão (tem-se em mente que o leitor do respectivo ensaio não cai na bobagem de examinar séries de televisão como uma suposta "arte-menor"- termo este que, aliás, não faz sentido algum). David Simon sabia que ele deveria mirar em um história profunda que contivesse, vá lá, sua dose de entretenimento mas sem sacrificar a visceralidade que qualquer obra realista (vale frisar que The Wire também contém um magnífica dimensão trágica) deveria abarcar pela natureza de seu gênero. A liberdade de consumir, a liberdade de se entreter, a liberdade de criticar- ao criar sua obra, Simon saiu deste círculo meramente reprodutivo para representar a essência do problema (e suas inúmeras complexidades). Em uma época de abstrações universais (falsamente reproduzidas) há de se compreender a necessidade urgente de algo que pare de dissimular o real para dialogar abertamente com seu sistema de valores, predominantemente, democrático-capitalistas.

A aliança jornalismo-realismo sempre foi marca primordial de todos os trabalhos anteriores de Simon. Este trabalhou no mundialmente respeitado Baltimore Sun, cobrindo pequenas matérias policiais que foram ganhando seu fascínio. Entusiasta da literatura de Dickens, David Simon se apaixonou pelo modus operandi da cidade de Baltimore e viu ali um potencial para explicitar grandes problemas que assolam a sociedade norte-americana. Declara-se The Wire não como um fraco apontar de dedos, mas sim como a única representação possível dos estados democráticos.

Este contexto violento e que posiciona a crítica social em nuances dicotômicas necessita de uma declaração que irrompa o mero modelo vigente ambíguo e cave na estrutura (socialdemocrata, cristã, ocidental) uma raiz central da qual as subordinações humanas se ramificam. Consequentemente e incumbido duma missão muito maior que o próprio jornal Baltimore Sun, em 1991 Simon foi atrás dessa grande origem e lançou um livro de mais de 600 páginas que viria, também, a se tornar sua primeira série televisiva.

Ir contra a representação ordinária e (quase) literalmente atravessar o "espectador-comum" é um pensamento bem inquietante que Simon deixa evidente em todas suas entrevistas. Ele, no entanto, ficou indiferente ao potencial televisivo (que prioritariamente é entreter) e continuou buscando formas jornalísticas de denunciar todas as nuances democráticas. Porque o papel normativo, mesmo que esboçando uma problemática, ainda assim é reacionário. Foi necessário continuar na literatura e investir noutro livro ,em 1997- desta vez em parceria com o detetive Ed Burns.


"The corner — A year in the life of an inner-city neighbourhood" evidenciou para todo um público a derrota que o sistema "guerra contra as drogas" causa e consolidou uma das maiores manchas da sociedade democrata. Não se trata de relativismo cultural, mas da derrocada intrínseca que um Estado Democrata perversamente situa a certos setores de sua sociedade. Simon dizia aos seus leitores os pontos reais em que a insanidade de outrem bifurca com o caminho da "pessoa comum". A estrutura falida em si, no entanto, não é capaz de entregar nenhuma espécie de verdade. A verdade das coisas deve ser organizada ainda que em uma perspectiva caótica para evidenciar o mundo do desamparo.


II - A consagração do evento esquecido

 "A realidade acontecendo" imageticamente e com um sucesso de público considerável foi atrativo o suficiente para David Simon e Ed Burns reverem respectivas posições sobre a televisão. A contínua imposição do mercado abrira uma brecha para dois homens apaixonados por suas profissões e, principalmente, por relatos que tentem encontrar a condição humana no outro. Nascia uma das primeiras, senão a primeira, série televisa capaz de causar uma ruptura no sistema da verdade e não apenas representar uma estrutura capenga e sim ser a sumária voz do desamparo. "The Wire" traz esta verdade recalcada, "The Wire" é a consagração do evento esquecido.

A autenticidade de "Wire" não se encontra apenas nas inovações narrativas, mas em ressignificar seu lugar (Baltimore) com um discurso emergente. A série é uma militância sobre a verdade, mais do que qualquer barata mediação "arte-espectador". Em um tempo em que "militância" é confundida com idealismo arcaico, há o fator determinante irrecusável de que este mesmo contramilitantismo é outro véu, outro mito. "The Wire" alarga as contradições de policiais, bandidos, governantes, imprensa, entre outros para operar como um potente soco que, novamente, atravesse os milhares de lugares-comuns.

A totalidade planejada por Ed Burns e David Simon precisa cirurgicamente (em formas de temporada, cada temporada tem seu alvo específico sem jamais desistir de abordar a enorme teia de acontecimentos que convergem no evento) o gigantesco painel em derrocada de Baltimore. A militância da verdade em "The Wire" é um processo corrosivo de apagar estigmas falsos para que os bandidos e policiais e crianças de rua e moradores de rua e jornalistas investigativos reportem um desespero humano, ainda que coberto de atitudes aparentemente vazias- por isso a ironia gritante no protagonista da série, Jimmy McNulty- interpretado em estado de graça por " Dominic West ".

A criação artística de ambos idealizadores resiste enquanto mero panfleto e se transforma em militância essencialmente na vasta galeria de personagens afundados na realidade que os cerca e em si mesmos- produtos desta realidade, reféns dessa hostilidade. Não há, então, como não ocorrer um espelhamento do telespectador nesta gama de personagens que apesar de serem supostos mocinhos ou supostos bandidos estão afundados na ilegitimidade da aparência. As posições paradoxais e justamente o choque de respectivos posicionamentos estabelecem a brutal cidade de Baltimore.

Se, atualmente, é de comum acordo que as melhores séries televisivas utilizam de técnicas sumariamente literárias para uma ênfase tanto narrativa quanto dramática, "The Wire" foi um das primeiras séries a usar vastos elementos clássicos para inovar em um drama na televisão. Sabendo que imposturas policiais tornariam a série uma ilusão, Simon deu uma cadência extremamente lenta para uma narrativa policial pois, acima de tudo, "The Wire" é um retrato avassalador tanto de suas personagens quanto de Baltimore. No entanto, é através deste desespero que um movimento autêntico ganha vida. No fim, "The Wire" é sobre uma tentativa de acessar o outro, de ultrapassar o terreno neutro medíocre ao qual o humano está submetido.


III - A luta essencial

No entanto, o uso de Baltimore como plano de fundo e sua imersão constante enquanto cidade-protagonista não irresponsabiliza a corrosão que o próprio humano submete outro semelhante. Ainda assim, a desumanização constante se tornou palavra principal em diálogos secos- não à toa, qualquer morte "importante" na série é mostrada indiretamente. Saber devolver a importância (ou buscá-la, mesmo que erroneamente) de uma vida à palavra parece a missão principal de David Simon.

O que Simon  e Burns quiseram enfatizar é que o idioma está morto em meio aos detritos sociais. Mas se isso ecoa como mito, o eco ainda pode acender algo. Desta maneira, frequentar o mesmo eventos repetidas vezes ao mesmo tempo tem o poder de tirar a empatia de qualquer ser humano, é o único aspecto que pode devolvê-la. É verdade que o acesso parece estar interrompido por instituições que veem o mercado (o de drogas, o político, etc) como máquina de acesso às estruturas que regem vida sem parecer se importar muito com ela.

Talvez, hoje em dia, é necessário uma busca pelo perdido, pela "realidade mística" que o detetive McNulty empreende objetivamente revirando a cidade em busca de uma Justiça que sempre que está perto é arremessada para além dos prédios verticais da cidade pelas instituições, pelo tráfico, pelo poder público- enfim, pelo descaso materializado, calculado, automático. De qualquer forma, é uma luta que Simon e Burns julgam essencial.


IV - A busca perdida

A transmissão de "Wire", a busca pelo que se perdeu no instituído:

Não é fácil transportar o terror diário e cotidiano de Baltimore de maneira trágica, inevitavelmente romantizada para a forma fictícia. Além do mais, é mais difícil ainda empreender qualquer espécie de jornada em um sistema que categoricamente deixa o ser humano com a sensação plena de impotência.

Simon e Burns, com certeza, gostariam de redescobrir a potência do indivíduo enquanto agente ativo no caos social. E eles gostaram de empreender esta busca examinando as complexidades que bloqueiam o acesso ao elemento-humano. Finalmente, eles dizem através de suas personagens: há algo claro e evidente e eu tenho que chegar nisso. Eu tenho que ser o agente transformador e organizar o caos em um sistema entrópico. Nos termos dos criadores, do caos e do desespero reside uma substância essencial que transforma o indivíduo e seu ecossistema social.

O evento nasce quando o humano se dá conta de sua condição e aceita as disparidades como fatores fenomenológicos e, por tanto, transformáveis. O elemento-social não é uma realidade perpétua. Há a indignação, há o frenesi- armas tão afirmativas como o caos. Em outras palavras: a condição caótica pode sempre ser combatida.

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