sábado, 2 de agosto de 2014

O egocentrismo em Philip Roth, Zuckerman Acorrentado.


“Encontrou as luvas no bolso do casaco e, depois de consultar rapidamente o relógio, abriu a porta da frente. ‘É como estar casado com Tolstoi’, disse ele, deixando-me entregue às minhas anotações febris enquanto corria atrás da esposa fugitiva, nessa altura a cinco minutos de distância, em sua malfadada jornada em busca de uma vocação menos nobre”.

Zuckerman, personagem central, está envolvido numa espécie de “pós-moralismo”, ou seja, a libertação de seu lar para ganhar o mundo com a vivacidade de suas palavras, a força de sua prosa, isso lhe rende desentendimento com irmão, uma troca incrível de esposas e neuroses pós-rompimentos, seu pai lhe diz “puto” como última palavra antes de morrer, onde minutos antes seu filho, Nathan, tentava relacionar tudo aquilo ao que lera sobre origem do universo. As histórias se desenrolam em planos afetivos diferentes, consecutivamente abordando territórios geográficos diversos- Nova Iorque, a faculdade em Chicago, o velho bairro em Newark, a visita a um dos seus escritores favoritos, em um local isolado-a estética da tragicomédia exemplifica o ritual urbano de risadas e difamações, multidão e isolamento. O narrador, hora em primeira pessoa hora em terceira, sabe do egocentrismo em Nathan. É uma espécie de romance urbano que- inclinado na voluptuosidade da cidade e suas atrações, suas possibilidades carnais e românticas- acaba tendo como erupção um “eu” abandonado, em diversos planos, tendo que recorrer sempre a literatura.

Às vezes não há distinção específica entre esse banho de hilaridade pulsante em cada frase de Roth- críticos que deveriam ser carrascos transformam-se, mesmo com enormes e abundantes erros, em pessoas que no final acabam servindo a propósitos bem intencionados, como é o caso de Appel, perscrutador feroz da prosa de Zuckerman- esse, por sua vez, fica lunático, vegetando em seu apartamento em uma espécie de harém moderno, onde várias mulheres desfilam; uma polonesa que sofreu no regime comunista, a mulher de um grande fã que trabalha como contador de Nathan, a menina de apenas vinte anos almejando colecionar experiências como homens “nojentos” (sic), ou uma artista mais equilibrada que vive nas montanhas.

As aspirações nutridas por Zuckerman apresentadas nas primeiras páginas- o garoto que deixa sua casa com dezesseis anos, cheio de ambições- aos poucos se tornam, no passar de vinte anos, prisões que ele tem de romper; o surto das feministas com sua obra, a moralização do crítico Milton Appel, Roth segue a tradição judaica de escritores que se revoltam com seus antepassados, mas é uma relação paradoxal, ao mesmo tempo em que se se conserva a cortesia e a intelectualidade catalisadas pela criação em uma família judia de classe média, você tem que romper isso com verdades e exposição de intimidades, a ruptura disso é um estrago enorme.


A comédia preenche as angústias de Zuckerman- em particular em Lição de Anatomia, onde nós nos deparamos com um escritor de meia-idade, que mantém seu “harém [sic]”, bebe vodka e dá uns “tapas” no baseado, e também no epílogo Orgia Em Praga, claramente envolvida em toques kafkianos no irrealismo, porém com a velocidade narrativa e jogos cênicos que tão bem constituem uma ficção tão própria como a de Roth. Como comédia trágica, as historias cumprem seu papel. Há enriquecimento das personagens, quase todas de relativa importância, até mesmo no caso do engraçadíssimo Alvin, tem como pano de fundo uma história muito bem definida, transferidas ao leitor sem soar explicações forçadas, devido à construção cuidadosa do autor ao modular tanta vida à essas pessoas- e prepararem-se para as gargalhadas.

Em “A Orgia De Praga” podemos perceber fortes influências de Kafka, mas também de todas as características que rondam os outros trabalhos de Roth, nesse conto com mais esmero e precisão estilística, também porque é um epílogo curto e finaliza o turbilhão de emoções que Zuckerman passou nas mais de quinhentas páginas anteriores. O ponto alto da trilogia é como nostalgicamente Zuckerman recorre a memória quando a pressão fica enorme, sempre voltando fisicamente a lugares da infância, abalado como as coisas mudam, ficando surpreso com a situação que se encontra. São reflexões que cobrem sua juventude, sua partida para o colégio, os desentendimentos com o pai, poder-mos-ia chamar de “romance de formação”, mas sua constituição fragmentada formula muito mais a “prisão judia” de Zuckerman ou seu despedaçamento completo enquanto pessoa. Aprender a se desmantelar pode ser “amadurecimento”, também. No entanto, essas situações adversas e teoricamente comprometedoras apenas o amadurecem enquanto ficcionista, pois seus momentos de introspecção são tão totalitários e sedentos que talvez não haja outra alternativa, a não ser realinhar essa compreensão tardia das motivações antigas de um suposto “si mesmo” com a grande imaginação que tem. A narrativa da queda. Voltamos no tempo, os feriados com a família, o primeiro conto, as publicações na revista, mas não é necessariamente uma investigação dos “porquês”, mas apenas molas propulsoras para vexames futuros. O estranhamento de Zuckerman quando está com Alvin é uma prova da existência de outro, por vezes esquece que é escritor e que tudo é muito engraçado, fica preocupado e relativamente neurótico com a possibilidade de sequestro da mãe. Parece que todas as convivências de Zuckerman estão fadadas à simples páginas futuras num livro de ficção.

Assim como o célebre Stephen Dedalus, as piadas de Roth não são antissemitas, mas sim uma risada malcriada, um escárnio contra a paranoia da obsessão histórica- essa problemática de você ser estigmatizado antes mesmo de nascer- não é autodepreciação, como muitos entendem, mas um grito obsessivo contra a condenação do instituído. As explicações para tanta risada, tanta perversidade e sexualidade em Zuckerman Acorrentado é que o riso se configura como único modo de mostrar o equívoco duplo: de esconder nossos impulsos, e o ridículo neles.



Zuckerman tenta convencer uma residente alcoólatra de Praga, Olga, a devolver contos escritos em iídiche, estes redigidos pelo pai de seu ex-marido, nosso herói tenta recuperar algo que é impossível entre ele e os contos na língua de sua raiz genealógica, existem sexo, álcool, dinheiro e o comunismo. Essa mulher pode ser vista como uma caricatura da sociedade contaminada, sem ideais, cujos únicos refúgios são basicamente bebidas e trepadas- o Zuckerman aflito de “Lição de Anatomia”, agora já revigorado, encontra um tipo de doença praticamente incurável, anos de paranoias somados personalizada em Olga. Os embates certamente envolvem a literatura de Roth em polêmicas de ordem religiosa, política, mas ele não está interessado em debates ideológicos dicotômicos, e sim em expor os delírios individuais que o contexto histórico nos impõe.

A associação com as personagens de Kafka ficam óbvias na passagem de Zuckerman por Praga, este mesmo sente isso e se compara tantas vezes às situações labirínticas vividas pelas personagens do escritor tcheco, é como se ao procurar contos escritos na língua judaica e adentrar em Praga fosse uma espécie de redenção para nosso herói, especialmente por ele ter alguma convicção própria no ato como espécie de “boa vontade”. O escritor de Roth quer contribuir em algo, mas sua personalidade não permite e as situações envolvidas naquela cidade tão distante não são nada mais do que sua ficção viva. Como cobrir as lacunas que o perturbaram durante toda a vida, uma busca impossível. Interpretar o passado e reestruturá-lo à sua vontade pode ser o triunfo dum grande romancista, mas quando as pessoas ficcionais viram reais, aí reside um problema.

Uma virada ocorre em Praga, Zuckerman não é mais a anomalia social em meio a artistas tão perversos, quase obscurantistas do sexo, ele é alguém gentil e letrado, diferente de sua fama nos EUA após escrever Carnovsky, paralelo evidente ao exorcismo que Roth precisava fazer após O Complexo de Portnoy.

Zuckerman está acorrentado às palavras, ao assunto sobre o qual se debruça quando elege este para escrever, às memórias de como seu egoísmo “destroçou” sua família (pelo menos é o que o irmão lhe diz, após o falecimento do pai) e a um presente “exotérico”, onde o sucesso como escritor se mostra o contrário de sua vida, hora perseguido por maníacos, ou dezoito meses com uma dor tão insuportável que decide parar de escrever.Seus impulsos tanto criativos quanto sexuais sempre falaram mais alto, talvez ai resida suas correntes.

Mas qual é o ponto dessas quase seiscentas páginas? Zuckerman Acorrentado não é o clássico romance de formação, mas uma investigação das motivações individuais artísticas em primeiro momento, depois uma constatação da banalidade que os famosos estão envolvidos e como os indivíduos aí são esquecidos (não só Nathan Zuckerman, mas a garota amante de Fidel Castro também sofre), a relação entre dor e não bloqueio criativo e, no fim, a paranoia incessante que é o epílogo. Em diversas situações Nathan se avalia sarcasticamente, de forma auto depreciativa, afinal, havia se transformado em um grande escritor, mas em uma boa pessoa?



Qualquer que seja o caminho enveredado por Roth, sua marca já está entre os grandes da literatura, talvez a considerável influência do labirinto kafkiano em sua prosa exagerada, cômica e nostálgica, tenha realmente a ver com a realidade, principalmente judaica, na construção de um país que está sempre nos noticiários, o maior império do planeta. Se Dante estabeleceu em um jogo transcendental o inferno, o purgatório e o paraíso, as coisas se confundiram um pouco após os grandes massacres terrestres populacionais do século XX, e Zuckerman enfrenta esses planos quase sempre ao mesmo tempo, entre seu harém sexual e as dores que lhe fazem desistir de escrever. Um requintado escritor que especula as possíveis variações do seu passado, sem objeto específico e com tudo ruindo ao seu redor, talvez isso seja realmente arte.

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