sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sonhos Idiotas São Permitidos



É sempre assim. A fase mais rigorosa do inverno chega. Minha cabeça matutando como sempre, “as coisas não vão dar certo”. Eu acordo e penso, “que coisas chatas eu vou ter que fazer hoje?”. E eu vivo procurando desculpas para conseguir tornar os dias mais rápidos. Caminho por três horas para não encontrar respostas. Chutando pedras, mãos dentro do bolso, a fumaça expelida a cada respiração.
Inclino a cabeça, só nuvens no céu. Nuvens de escárnio. Como se o mundo inteiro zombasse de mim. Melhor, a indiferença total. Primeiro quarteirão, segundo, terceiro. Cumprimento um senhor aparentemente bastante entretido com seu cigarro até perceber o som dos meus passos. Ele me pergunta como estou. E sejamos claros, se essas respostas fossem sempre sinceras...

Para o tempo passar, imagino aquele senhor nu, depois com fraldas e chupeta. E é esse tipo de patetice que enche minha cabeça. Nunca um pensamento nobre. Luta livre pelada, uma banda de noise formada por marcianos, o planeta Terra como despejo de algum outro mais evoluído, onde somos meros resíduos, uma caneta perfurando orelhas como em filmes japoneses, em jogos de televisão japoneses onde há poetas que se não escreverem os poemas vão se transformar, automaticamente, em empregados de uma empresa de contabilidade (todos perdem propositalmente). 

Divagando nessas coisas de vital importância, passo em frente o bar da Dona Rose. É. Uma cerveja seria legal. Dona Rose me fala do seu filho, da briga da última noite entre dois clientes que discutiam qual melhor azeitona (preta ou a comum?). Eu peço uma porção de amendoins. Eles estão duros, secos e velhos, como o senhor que cumprimentei no início da caminhada. As patetices vão atordoando minha mente, livres como pombas nojentas. A cerveja acaba. O frio e o tédio não.

Volto para casa depois de três cervejas, (ou cinco? Ou sete? Tanto faz), é isso aí, outro dia, penso. O céu está igual. Sempre. Esse imponente zombeteiro. A zelar a idiotice alheia. A zelar toda a babaquice de horas e horas de caminhada. Para terminar na mesma cama. Olhando o velho teto. Se o sono chegar – e Deus quer que ele chegue- algum intervalo entre as patetices. Sonhos idiotas são permitidos.

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