segunda-feira, 2 de abril de 2018

alívio da realidade

Quando percebi você estava com as suas mãos sobre as minhas, fazendo me sentir acolhido pela primeira vez em meses. Eu ,quem tive poucos corpos tão próximos a mim, senti que aquele tipo de proximidade era algo que eu precisei a vida inteira, andando em círculos em torno de um desejo abstrato que nunca sabia ser possível materializar. Eu tenho mastigado aquele momento desde então, retardando a digestão para viver o máximo possível no exílio da lembrança e atrasar o acontecimento da realidade. Quando eu retribuí o carinho e a Liberdade mostrava-se lotada, eu lembrei as vezes em que caminhei por aquela praça sozinho pensando se um dia seria possível o milagre do acontecimento. Iludimo-nos de que duraríamos para sempre, pois precisávamos da confirmação do amor para fazer sentido toda aquela baboseira. E no êxtase do que nomeamos Província Amorosa criamos um retiro para negar tudo o que efetivamente acontecia. Todas as manhãs eu abria meus olhos procurando uma forma de mandar-lhe uma mensagem para provar a mim mesmo que o amor ainda era possível. Incapaz de ver que eu envelhecia sem cultivar nada além da necessidade de provar, para mim e para todos, que eu estava embutido numa narrativa e que, de alguma forma, essa ficção que chamava minha vida podia ser um alívio da realidade. Alimentado com a opressão dessa noção gigantesca e uma esperança ínfima de que algo como amor fosse possível e desejado.

Reality Generator -Petras Kostinas

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