sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ausência #4 (toda a sua vida)

Hibridamento, cruzamento, evolução: estipulações precavidas da união global baseadas nas normalidades  máximas, o avanço do triunfo enquanto as paredes descascadas são sinônimos de uma época ultrapassada. Ele assimila novas teorias para compensar o passado: é o ufanismo da revanche, é a invalidação da inexistência como fator originário que explica a destruição. É fácil assimilar o marasmo quando se coloca uma ficção trágica nele. A realidade é trocada pelas impressões. Como um cachorrinho que lambesse o sorvete no chão, ele fazia dos resquícios o que bem entendesse. Mas é primordial entender que, para ele, os resquícios eram tudo o que existia. Era inadmissível e improvável entender a realidade como algo além de vultos. Nós suspirávamos um futuro, a ponto do meu hálito ser absorvido pelo seu nariz. Nós acreditávamos nesse futuro? Futuro sempre foi adquirir um bônus, um mais-valia para imprimir a sensação de compensação. Não é como os princípios básicos da botânica, o futuro é a exceção à regra porque ele nos é arrancado. Ele é um improviso de uma banda a qual nunca tocou junto e que, se tivermos sorte, encontraremos instrumentos similares aos quais nós passamos a vida ensaiando. Tão claro seu dom para a observação, para a memória fantasmagórica. O melhor colecionador que eu já conheci. Peças dispostas lustrosamente nas prateleiras prontas para a utilização. Espécies mutantes de argumentos convocados como fantasmas para transformar a dimensão presente em algo inteiramente novo, inteiramente destrutivo. Um fungo patogênico com origem no tribunal da infância e que o influenciou em decisões e julgamentos durante toda a sua vida. Ritmada nas decisões momentâneas que vão destinar toda a sua vida, a lapela recomendável ao nosso luto cresce e diminui como a maneira pela qual nos tratamos durante todo este tempo. Uma flor em fevereiro é comum, é aniversário de quem ele enxergou com tanta bondade. Eu nunca perguntei por que ele sentia todas aquelas coisas e como elas nasceram tão rapidamente em poucos dias.

Nós tínhamos dúvidas mais simplistas. Como trabalho e coisa e tal. Como se virar materialmente para ficarmos juntos até que essa abstração de "ficar juntos" mostrou-se inviável. Com um passaporte para convocar o fim, ou seja, como uma desculpa moral para execução de suas vontades reprimidas, ele disse as coisas de uma maneira muito adulta. Droga, eu não lembrava ele ser tão adulto. Mas sua genialidade mostrou-se perspicaz tantas vezes, descobrindo coisas que eu não revelava, indo atrás de acontecimentos passados e explicando-os através de algo que fazia sentido. Droga, você podia discordar, mas fazia sentido. Através da janela clara de sua pele, as marcas do amor desapareciam gradualmente para provar que, para ele, o conhecimento notório da performance era algo mais imediato e urgente. Apenas ontem havia carinho e amor, mas esses não são sentimentos fáceis de guardar e manter e esquece-se rapidamente de seus efeitos quando o chão em que se pisa abre-se sem misericórdia. Qual era seu nome? Sei que nasceu em um estado sobre o qual eu não conhecia praticamente nada. Tentava se fixar financeiramente enquanto fazia observações pertinentes acerca dos meus fingimentos. Limpava sua casa sempre que eu ia lá ou pedia desculpas quando o piso de madeira estava empoeirado. Afastava as cadeiras e a cama para que tivéssemos mais espaço. Movia-se ao parapeito para cuidar das pequenas plantinhas pela qual nutria grande atenção. Comia em silêncio, sobre a improvisada mesa da cozinha, com um rascunho de um sorriso calado no rosto. Antes de falar algo, forçava uma tosse para desobstruir a garganta. Então esticava os braços para alcançar a plenitude da rotina. E se movia pacientemente para voltar a cuidar das plantas, em pequenos movimentos os quais eu só consigo recordar agora, com certo distanciamento.

Alguma coisa sobre seus movimentos deixam-me mais hipnotizado quando lembro sua presença do que os sentimentos que eu enfrentava. Eu recordo mais esses movimentos quase-mecânicos do que a veracidade das coisas que sentia. Eu nunca perguntei o porquê de ele tentar me desvendar tantas e tantas vezes. Era algo intrínseco nele. Eu suponho que eu gostava dele e de suas minúcias acerca da minha falácia. Porque quando eu mostrei as coisas as quais eu escrevia, eu pressenti um olhar acusatório que me isolou na mais deslumbrante distância.

Retrato de uma Dama (Van der Weyden)

Nenhum comentário:

Postar um comentário