terça-feira, 13 de setembro de 2016

a ressonância de dois corpos, pensamentos causados por "eu, você e a garota que vai morrer" de Alfonso Gomez-Rejon


Eu chorei porque o filme falava de nós e as imagens mudavam assim como a intensidade do reflexo delas nas minhas lágrimas e teu corpo era testemunha (também chorosa! ) da minha fragilidade. Enquanto nos desmaterializávamos no colchão que passamos tantas tardes assim sei lá falando sobre nada em particular (ou sobre tudo que nos era inalcançável), e parece que um bocado de nós escorria em alguma matéria conectiva (como esboçar uma ressonância que completa dois corpos? ).

Não é que eu queira me orgulhar de correr durante vinte e cinco anos na contramão ou na antecâmara dos acontecimentos ou qualquer merda dessas. Não é que eu queira me orgulhar do não pertencimento ou do não compartilhamento imediato ; não mesmo! Mas parece que toda essa hesitação perante a vida foi um tempo (em que as horas não existiam; era tudo embrulhado, afinal) de preparo para a saudação hospitaleira. A mão que saúda o meu corpo com o advento de uma ação inaugural ; como se o sistema de representação que colide nas ações fosse implodido por uma matéria nostálgica ; uma matéria que é a constituição de tudo o que a representação não pode incorporar.

Agora eu vejo que a renúncia involuntária não foi uma corrente que me prendeu na esfera da distância. Foi o elemento de não se deixar encantar pela magia do mundo que permitiu que eu residisse aqui, aguardando tua chegada. Quando você abriu o portão e vi tua silhueta sob as árvores tentava pensar em algo mais do que apenas bobo para dizer ; sem saber que tudo o que escondi durante anos fosse ser o suficiente para você. Tudo que escondi dos outros só teve ressonância completa em ti. Em seu cabelo escuro blindado pela proteção de quem nunca pertenceu.

Há um reino todo desabitado para conhecer. E eu sei que ele existe. Eu sei que nele pode brotar coisas indefinidas ; pequenas bolhas que são transportadas do mundo-lançado para serem elas mesmas protagonistas de um enigma. Como seu sorriso e seu choro e suas gargalhadas e sua preocupação também resistisse contra a tirania da luz; são eles enigmas também. Que eu nunca te desvende, que eu nunca esqueça quando você disse:

"A gente nunca vai estar do lado de dentro. Mas foda-se. Eu não quero mais estar. Desde que seja com você neste exílio. "

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