sábado, 2 de julho de 2016

Eu preciso parar de me autodestruir com sonhos recorrentes sobre você: pensamentos provocados por Celebrate, do Tiny Moving Parts



Nada nunca é bom o suficiente, eu sinto falta de algumas coisas que eu perdi. Eu quero dizer, eu sinto muita falta. Pessoas com quem eu dividi uma intimidade gritante hoje se dispersam em memórias de dias bons e não tão bons. É como se eu tivesse em uma estrada e, pelo retrovisor, eu pudesse enxergar rostos queridos se dispersando pela velocidade da vida.

Meus braços ficam cansados porque eu tento segurar coisas mais pesadas do que eu posso. Eu atribuo um peso para as coisas e passo a viver sobre minha atribuição. Minhas mãos estão suadas, eu estou ansioso. Eu olho no celular para ver fotos de nós sorrindo, lutando de nossa maneira contra a passagem do tempo. De dedos cruzados, esperando que nós nos transformemos em algo mais do que memórias- de que nossa comunhão, mesmo que passageira, tenha significado algo que nos ajude a enfrentar o dia-a-dia e não se torne um epicentro negativo que sugue toda nossa energia vital.


Talvez porque eu queira sentir transcendência em tudo e passe batido pela manifestação mais simples das cosias. Como, por exemplo, passar a língua e sentir o formato caricato dos meus dentes ou a espessura das minhas gengivas.


Como nós viramos o relógio e nos transformamos no que éramos antes- em uma época que ainda nos orgulhávamos de ter algo em comum. Em uma época que nós nos bastávamos e o mundo era extenso, porém tateável. E eu tento repetir os mesmos gestos e, embora eles pareçam ser os mesmos, falta alguma característica sua para configurar qualquer ato terreno como milagre. Cá estou eu buscando por milagres novamente. É como sair de uma caminhada tranquila beirando o mar cristalino e ser arremessado ao espaço urbano cinza novamente. É como ter testemunhado o divino e, de repente, ter que lidar com o mundano novamente.

Eu estou cansado de me sentir vazio em uma festa cheia de gente. Mas sempre foi assim. Eu sempre vi tudo isso como uma possibilidade. Raramente como algo concreto. Mas tem seu lado bom- eu nunca neguei a ninguém a possibilidade de me maravilhar e a gente conseguir ser algo fantástico, algum degrau para uma existência compartilhada. Eu valorizo muito quem me fez atingir esse estágio. Meu erro, no entanto, deve ser só querer viver nesse estágio.

Eu lavo a louça e a água fria do inverno congela meus dedos. Mantendo dentro de mim toda essa ansiedade gritante. Maquinando coisas ficcionais e as misturando com a realidade- uma antecipação assombrosa de que poderia acontecer e nunca vai se concretizar. Eu queria voltar a ficar acolhido em lembranças e não senti-las se despedindo de mim com um desdém, como se eu tivesse sido insignificante o tempo todo e toda transcendência que creditei àqueles momentos fossem apenas maravilhas da minha imaginação e recuperações de uma nostalgia sadia. Eu durmo com as lembranças bombeando minha mente, mas como elas são para as outras pessoas? Eu fico ansioso e tento ficar empático com pensamentos que nunca serão meus, por pensamentos que se despedem como desconhecidos. Até a gente se ver qualquer dia desse e trocar um “olá” como se apenas fôssemos meros conhecidos. Como se esse beijo selasse uma aproximação possível e nunca houve um “nós”.


Eu respiro profundamente. Eu só estou perdendo o controle. EU só estou sendo um “eu mesmo” escondido e que nunca se revela. Eu só preciso superar esse terror. Eu preciso parar de ver todo minuto como uma possibilidade de tentar antecipar um futuro que nunca irá se realizar.

Se “dois anos” é um tempo medido e se esses “dois anos” foram a suspensão de minha constante irregularidade, eu tenho que aceitar que esses dois anos nunca mais vão se repetir. Um amigo sempre diz “mas irão vir melhores”. Mas eu quero AQUELES dois anos, eu não quero o desconhecido agora, eu quero recuperar o que eu tinha. Eu preciso entender isso melhor. Eu preciso entender esse mecanismo complexo que me faz olhar para o futuro e ainda ver tua imagem borrada como uma possibilidade. Esse copo de cerveja do lado, com as marcas irregulares de minhas digitais, o balcão lotado de desconhecidos, o piso branco na parede, o cobrador atrás de uma minicabine vitral. Tudo isso, e ainda é só tua imagem que borra todo o real.

Então, eu tento me movimentar nas formas obscuras do que um dia nós fomos. Eu tento me locomover, não para frente como em um livro de autoajuda, mas entre os espaços vazios dessas formas tão conhecidas ainda assim tão desdenhosas e perturbadoras. Como Dylan disse, “I don’t understand the pain inside my chest It’s all in my head”. A solidão é minha casa e eu preciso aprender a viver com as crateras do que um dia eu fui.

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