segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CHTHE'ILIST - Le Dernier Crépuscule

CHTHE'ILIST é um trio canadense que surpreende com Le Dernier Crépuscule, primeiro álbum cheio da banda. Há muito a se considerar nesse disco, principalmente os multielementos que contribuem para o ambiente “contaminado” que se percebe no decorrer da audição- um material que exala sujeira e radicalismo. O contexto que a banda se encontra (um gênero estruturado em conservadorismo e poucas bandas exploradoras) não apequena os iniciantes. Ouvimos a grande quantidade de bandas genéricas de death metal brutal, nós ouvimos muitas bandas medíocres de metal técnico e aí quando uma banda dessas surge, eu não fico surpreso de ver tantas resenhas favoráveis. Álbuns como Le Dernier Crépuscule merecem serem prestigiados a cada segundo porque eles são, desde o primeiro instante, destruidores. Sim, esse álbum merece todo o apreço que vem sendo diagnosticado. Eu fico pensando nele como um gigante demoníaco que aos poucos nos absorve nessa áurea de obscuridade. Em Le Dernier Crépuscule, nós temos uma banda nova que já está no controle completo de sua sonoridade. Pode-se ouvir influência de death metal norte-americano e finlandês do começo dos anos 1990. Eu deveria criar uma resenha informativa e explicar os outros projetos de metal extremo que os membros já estiveram envolvidos, mas eu prefiro me concentrar em toda dissipação assombrosa que é esse álbum. Meu envolvimento pessoal no metal, nos últimos sete anos que venho acompanhando de perto, observou poucas estreias tão gigantescas quanto essa. Ao mesmo tempo em que eu ouço faixas que veneram o velho death metal, ao contrário de lançamentos como o último do Naðra, nada aqui soa catalogado ou revisionista.

Meu primeiro contato com a banda foi com a demo inicial e as faixas dessa demo foram revisitadas e ganharam ainda mais força para acompanhar as novas no disco. Faixas que parecem realmente novas e não entram no álbum apenas para encher o álbum ou a duração dele, mas ganham peso estético e aperfeiçoam as possibilidades de Le Dernier Crépuscule. Mostrando que criatividade para compor não foi problema algum. A banda inova nos caminhos e cria um mundo que vai nos caçar e preencher tanto nosso imaginário com múltiplas imagens, em suas maiorias místicas. E as letras não deixam por menos; elas contam diversas histórias que se desenvolvem paralelamente e se entrelaçam em alguns pontos, criando uma base conceitual para o trabalho. Eu fiquei realmente empolgado na primeira vez que ouvi o disco. Eu era absorvido por essa narrativa mitológica que consagrava uma espécie de escárnio, como um organismo que vai ficando cada vez mais sujo e acumulando diversos tipos de imundices. Cada vez que eu exploro novamente o mundo de Le Dernier Crépuscule, ele não cessa de, felizmente, deixar-me desgastado.

Na última década, não consigo me lembrar de tantos discos de metal que não perdia em instante algum seu caráter “bárbaro” sem deixar de nos surpreender com uma variedade de rifes técnicos. Isso não é para depreciar as outras bandas, mas para evidenciar que há muito para ser feito no terreno da música extrema. Como se não bastasse seis músicas que nos destruíssem, a última faixa é um aglomerado de execução técnica e monstruosidade monumental. O final de cada música, aliás, é tratado de maneira especial e normalmente é encerrado com sons cavernosos e/ou de criaturas agonizantes, que, para falar a verdade, não se diferenciam muito da agonia infernal que o vocalista e contrabaixista Philippe Tougas consegue nos passar. Um pouco influenciado pelo Black metal (mais evidentemente na hora dos blast beats), o álbum arrasta os ouvintes, sem muita dificuldade, para sua zona negativa.

A banda evita claramente de cair no “folclore” do metal e manipula os elementos modernos (que são vários) com muita noção estética. Com um começo assombroso, nós vamos nos tornando “irmãos” que acompanham essa ópera rumo a destruição. A segunda música já nos brinda com os sentimentos ambíguos de todo o álbum, principalmente nos duetos vocais limpo-guturais ao mesmo tempo. Que deixa tudo mais sujo e complexo. As melodias são memoráveis e variam tanto quanto os rifes e as quebradas do contrabaixo, e é essa estrutura contínua que vamos ter que enfrentar por mais de cinquenta minutos. Novamente, impressiona a combinação dessa impressão “suja” com a adesão de elementos modernos. Le Dernier Crépuscule invoca temas comuns no metal; RPG e ficção científica para estetizar o louvor pelas bandas antigas (especialmente as do norte europeu) e figurar com muita força própria.

Talvez, com o passar do tempo, o CHTHE'ILIST não consiga mais criar um disco tão vasto e imagético quanto Le Dernier Crépuscule. De qualquer forma, a teatralidade do álbum sempre vai ser válida. Desde a bateria de Philippe Boucher aos vocais brutais de Tougas, o trio expandiu seu som para pisar num extenso território próprio. Quando nos deparamos com um disco desses, nós nos lembramos de tantas definições e ainda assim nós não encontramos qualquer abreviação que sintetize a potência desse álbum. Le Dernier Crépuscule é, talvez, o que o metal precisava para mostrar seu poder esse ano. É incrível como esse álbum carrega todo o vigor das bandas mais antigas e ainda assim aponta sonoridades não exploradas pelo público de massa.

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