terça-feira, 17 de junho de 2014

Punch e a busca pela libertação


O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.”
- T.S Elliot

I



Os riffs começam pesados, os berros são pesados, as quebras no andamento são pesadas e depois tudo volta mais doloroso possível. A voz da Meghan registra uma ânsia por libertação de todas as formas sociopoliticamente opressoras- na verdade, toda a textura instrumental se dedica a isso. Os atritos causados pela necessidade de velocidade são alavancados por poderosas batidas na bateria. Um cenário de caos. Sobra construir algo em cima dessa desolação- pra isso, as letras.

Eu me lembro do final de agosto de 2010, quando ouvi esse disco, pensei “é o melhor álbum de hardcore esse ano”, sim, o Kvelertak tinha lançado, uns dois meses antes, um baita álbum. Mas esse disco do Punch é caloroso, intenso, apaixonante- “mas só isso qualifica para ser um bom álbum?”, alguém pode pensar. Mas aqui, tudo converge em um organismo explosivo, um petardo por música. Meghan é como uma britadeira no vocal, formando críticas em todas as esferas (inclusive pessoal). A alteração de andamentos do instrumental reflete a capacidade de banda como músicos, gerando energia mais do que suficiente para ficar pulando e socando (?) o ar.

Os membros do Punch participam de alguns outros projetos bem conhecidos até, sendo o Loma Prieta o mais entre eles; é inevitável não comprar, mas os buracos que ficam na sonoridade do Loma são preenchidos pelo Punch.  Os alicerces das músicas inventam uma ofensiva frenética capaz de horrorizar ouvidos não acostumados. As quebradas não soam “fora do lugar” ou “excessivas”, como na maioria das bandas do estilo. É difícil não sentir que todas as estruturas de calma e paz não são abaladas por guitarras, berros e batidas que ressoam ira e apocalipse. Essa inteligência em não ser apenas um monumento à raiva, mas sim letras que refletem e instiga o ouvinte, assim como na esfera sonora e distribuição de riffs, a pensar- mais uma vez, outro ponto que eles se diferem da maioria das bandas de hardcore contemporâneo.

A coesão nos atrai a ouvir o Punch diversas vezes. É estimulante escutar uma banda que não força uma completa e irreversível perda da função cerebral. A aflição entregada pelos vocais se assemelha muito mais à cena screamo do que propriamente hardcore- são questões sendo formuladas, nunca respostas concretas ou decisões pré-estabelecidas. Seus ideais não vão ser apregoados por menos que vinte minutos. Vão questionar suas raízes centradas em porque gastar dinheiro que não tem com o que não precisa, ou como se sente a respeito da luta das mulheres por igualdade. Sim, eu sei, são tópicos relativamente batidos dentro do hardcore, mas é essa coesão citada acima e respeito pela inteligência do ouvinte que o Punch não entrega respostas prontas, ao contrário- ataca as convicções que enraizaram em nosso leito, de maneira a ressoar de tempos em tempos em nosso intimo. 

Punch- Push Pull [2010]
II


O “soco” do Punch, como se fosse toda a intensidade sonora concentrada, é rápido. Sério, esqueçam qualquer sinal de sutileza que vocês possam ter pensado, essa espécie de thrash hardcore não deseja isso, odeia isso, e vive bem sem isso.

A banda da Área da baía de São Francisco esburaca seu espaço na cena há muito tempo, sendo que a cada lançamento perpetua (cada vez mais) sua imagem imponente: uma banda com propostas estruturais interessantes, uma vocalista tentando se libertar a cada berro e riff quebrado.

E de uma maneira um tanto quanto “abrupta”, a Deathwish decidiu apoiar a banda em um novo lançamento Não há nenhuma grande mudança na sonoridade da banda, mais eles estão ainda mais firmes nesse terreno sólido que decidiram construir- haviam lançado um disco cheio no ano antecessor, e talvez isso justifique a pouca mudança estrutural.

O EP é estruturado pela raiva de longa data que sempre acaba formatando a tensão da banda, assim, a Deathwish apoiar esses monstros emergentes do “faça você mesmo” faz todo sentido. Em T.S Elliot, as tensões espirituais/filosóficas são evocadas e pensadas na forma de estruturas poéticas tradicionais - o universo do Punch resvala em questões que cruzam esses dois eixos, a rivalidade gritante entre “ser” e “estar”, criando contrapontos que nos deixam mais atentos na reflexão entre toda a barulheira. As faixas são curtas, poucas tem mais que dois minutos e meio. Em entrevista para a Ideal Shop(http://blog.idealshop.com.br/2014/05/entrevista-com-a-banda-punk-punch/), Keith disse que a banda é mais influenciada por convenções de gênero e tradições temáticas. A tensão está quando a banda localiza justamente as disparidades e contradições que abrigamos quando percebemos nossa posição no mundo.


Em Nothing Lasts, o progressivo aprimoramento técnico espreita para a relevância que a dedicação da banda aponta. Músicas como Time Apart indicam a construção de uma despedida, quando algum relacionamento está seco e esquecemos até mesmo a imagem do outro. O mote do disco é a comunicação direta, utilizando muitos “you”, como um diamante bruto, tanto em sonoridade quanto letras, as expressões foram reduzidas para apenas as estritamente necessárias. A agressividade proveniente, em que críticas “totais” caem no discurso direto livre, não é um apontar incessantes de dedos, mas registros de frustração, formando sínteses que parecem não poder ser expressas a não ser pelos berros sufocados, descendo em camadas tão pesadas e rígidas que não acreditaríamos tais proporções de sentimentos raivosos tão bem encaixados- não é a reinvenção da roda, obviamente, mas como um dos contos mais pesados de Hemingway, este mais legal que rodas. Essa tal raiva representa nossa perda de convicções.

Punch- Nothing Lasts 7" [2011]


O posicionamento panfletário não existe aqui. Cada faixa relaciona a pressão que os indivíduos são impostos pelas convenções institucionalizadas citadas acima, a banda aposta em colocar o ser no cerne da questão porque daí a perplexidade brota em seu sentido vulgar, perguntas como “por que ainda ajo dessa maneira?” ou “qual sentido faz seguir esses padrões?”, adquirem legitimidade. O que está presente é o questionamento da imagem que criamos de nós. As letras facilitam essa ideia de compreensão de nosso papel nas engrenagens cotidianas, escondidas. Operação típica dessas novas bandas que claramente sabem do discurso acadêmico sobre tais temas, mas exigem problematizá-los da forma mais pesada (e direta) possível.

Mesmo com essa exposição, você pode perguntar “mas alguém realmente liga?”. Aparentemente, sim- por isso canções continuam sendo desenvolvidas, talvez repetitivamente, sobre temas batidos. Mas discutir os problemas ainda é pertinente uma vez que certos escapismos continuam sendo oferecidos como forma de se afastar da pele morta que somos, esquecemos que o “ser” também é abrangido pela totalidade dos discursos que o repelem. Mas o que fica claro, é que não estamos ouvindo simples agressão gratuita, e que a raiva não é só uma arma. Aqui, as relações que nos enclausuraram a certos papéis no mundo que são visadas.

A relação entre a raiva e uma possível construção de seres humanos mais empáticos é muito mais emblemática, tênue e paralela do que simples discursos de autoajuda; é a localização de implicações éticas que apontam para o cerne da questão- como tarefa mais difícil ainda do que dizem certas pessoas que “não tomam partido” ou que se eximem de posicionamentos para ter o dedo em riste à todo instante- é um questionamento muito válido da facilidade dos não discursos, frases clichês, travestidos na passividade de “não se importar” ou estar “pouco se fodendo”.

Como citado anteriormente, um dos principais motores criativos da banda é a imposição de gênero. Os gritos, as guitarras “desorientadas” justificam musicalmente a necessidade de simbolizar mais do que o “discurso”. As associações entre os elementos, a base estrutural que rege os comportamentos não pode ser atacada simplesmente em sua totalidade, por isso as letras curtas, as ideias fragmentadas. O que se fazer quando todas as referências são complexos culturais?

Ouvindo Nothing Lasts e Punch, a pergunta: ainda há a necessidade de referências e de cultura?

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