Todo novembro eu sempre me lembro de não poder ir para o hospital e chorar em silêncio numa casa isolada no interior de Minas Gerais. Canto em seu túmulo “Dear Coach Conner” um pouco envergonhado de as pessoas perceberem a aberração desse rito. Mas eu ouço o farfalhar das árvores, o vento materializando sua ausência que arrepia meus braços.
Como eu poderia esquecer o mundo que você me mostrou? Sonic youth, Foster Wallace, teatro do absurdo, as noites de skate, os dias de futebol, Santo André era nossa, o código de RE2 era nosso. A coragem a partir dos protestos de 2013, o envolvimento com um mundo novo de contestação e luta. Gostaria que você tivesse visto os olhos cheios de vida das últimas semanas, as ruas tomadas, a virada impossível.
Seu corpo se foi, mas você brilhou nas vozes roucas de um futuro insurgente, um Cronos constante que nos tomou de assalto. Agora em todo novembro vou me dirigir a seu túmulo, impossível de ser convencido com seu cadáver de covid apodrecendo ali. Agora toda vez que ouço “Dear Coach Conner” é a vitória que você não celebrou cantando aqui. Gostaria que você tivesse visto os movimentos que vi, o Verme 1 sendo preso, o Verme 2 fugindo e sua mãe dedicando a vitória a seu nome sagrado que continua me visitando toda vez que a fluoxetina é insuficiente.
Além do tempo e do lugar, nas pegadas do seu skate, nos riffs de Raining Blood, quando eu fecho os olhos e vejo seu rosto. Além dos dias que seus riffs e melodias são a gratificação nostálgica de uma amizade arrancada do plano terreno. Além do sentimento, toda jam juntos formou uma raiz inextirpável. Além da memória, quando esses dias acabarem, quando voltarmos ao nada, vou carregá-lo nas minhas palavras, nas minhas melodias e nos meus punhos.
Então, no próximo 7 de novembro, vou prometer que todo sorriso é um réquiem, que esta camiseta do Title Fight é o mantra que nos une de dois mundos distintos. Toda vez que berro Propagandhi será sua energia fluindo através de mim. Vou correr na UFLA com a tua miríade redefinindo as cores do céu.
Vou colocar minha alma na música para ouvir sua melodia novamente.