segunda-feira, 5 de maio de 2014

Cadu Tenório- “Cassettes” [2014]



Em meio ao impiedoso caminho que o carioca nos confina em uma tensão poderosa, sinto que não há formas de se libertar da perpetuação entre tantas sobreposições. Não se trata de um amontoado, pelo contrário- é um artista que evita obviedades para nos imergir em um espaço temporal completamente desconhecido.

Em Cassetes, não há propriamente uma lógica clara, embora deva existir uma espécie de coerência artística interna, onde Tenório transita entre diversos terrenos experimentando sempre. Não sei bem as especificidades eleitas pelo músico, mas cada uma das quatro faixas se manifesta evidentemente diferente das outras.

Já com quinze segundos de Prematuro, a primeira faixa, estamos deslocados na extensão dissonante fragmentada, onde há instrumentos de corda, vozes ao fundo e elementos eletrônicos que tentam se comportar como unidade, em meio a disparidades. Descobrimos-nos frente uma parede sonora, que parece sempre repetir o caminho. Como lógica não é o ponto, as transições mais naturais são cortadas por ecos. E tudo é parte da peça: os ruídos, vozes e elementos harmônicos crescem, diminuem outros sons- um coletivo flutuante disseminado.

Para acalmar à sua própria maneira a catarse que é ‘Prematuro’, as próximas duas faixas são mais simples, ainda assim envoltas em múltiplos elementos. Ambas são injunções de barulhos domésticos, e você vai provavelmente ter que aumentar o volume para entender melhor respectivos mecanismos. A experiência fica baseada justamente na modulação e manipulação de Cadu, que interrompe o processo para nos lançar em outro ambiente. Estamos, então, em outro tom mais harmonioso e aconchegante.

‘Ventre’ fecha o ciclo, recuperando parte do encanto de Prematuro, embora a estrutura aqui seja mais fragmentada pertencente a capacidade de apreensão do ouvinte. Nem as referências claras a outros trabalhos tiram sua força própria- na imersão abstrata hipnótica.

E o que nos liga entre os recortes propostos por Cadu, mesmo que as interrupções surjam a todo o momento, é um ambiente contínuo que se estabelece por não tão claras conexões melódicas. Cassetes é um espaço vazio para as colagens, que revelam um músico distante de uma autoconstrução racionalizada, em meio a reflexões múltiplas que contemplam uma obra carregada e sombria.

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